Velhas coisas, novos olhares


Começo de ano, amigos e parentes que moram fora voltam à terra natal, e pululam os mais belos votos para o novo ano.

Com esses filhos da terra momentaneamente desgarrados, aprendemos através de um novo olhar sobre a velha cidade, velha cultura, velhas coisas...

No meu primeiro encontro com amigos que moram na Áustria e São Paulo fomos à praia e a um restaurante de comida típica baiana e ouvi, durante o par de horas que por lá passamos, sobre a falta que a nossa comida lhes faz, e o quão felizes estavam por aquele reencontro amoroso em torno de uma moqueca de camarão. Moqueca, “farofa de macumba”, acarajé, abará, vatapá, caruru, cozido, maniçoba, sarapatel e até a cerveja “aguada”, se comparada às deliciosas cervejas gourmet austríacas. Um deles rindo e relembrando que passara a noite anterior à viagem sem dormir apenas pensando nas comidas que voltaria a se deliciar.

Dias depois, repetindo o mesmo programa mar-comida-bebida, com uma outra amiga baiana e paulista, confessou que havia se prometido só comer frutos do mar e comida baiana.

Primeiro domingo do ano, batizado de minha sobrinha americana que está na cidade. Minha concunhada e seu marido alemão, voltariam para o velho continente naquele dia, logo após a cerimônia. Na igreja, um calor escaldante, todos agoniados. Finalizada a cerimônia, apressei-me com as despedidas e corri para o carro numa fuga alucinada por um ar condicionado.

Já de volta ao meu confortável ambiente refrigerado, me deparei com uma cena que levarei anos para esquecer: no tumulto da saída da igreja, no meio daquele calor infernal e com dezenas de pessoas se acotovelando, se beijando, se abraçando e se despedindo, o alemão retira seus óculos de grau, encosta a cabeça na parede externa da igreja, fecha os olhos e inclina a cabeça para o sol, curtindo seus últimos segundos de bênçãos em contato com o astro rei em toda a sua magnitude.

Alguém tocou em seu braço para se despedir, ele colocou seus óculos, cumprimentou a pessoa e, na sequência, retira seus óculos de grau, encosta a cabeça na parede externa da igreja, fecha os olhos e inclina a cabeça para o sol, curtindo seus últimos segundos de bênçãos em contato com o astro rei em toda a sua magnitude.

O carro passou por ele devagar e foi a última cena que vi do batizado.

Temos tantas velhas coisas maravilhosas que nos são dadas desde sempre que, por vezes, nos esquecemos de agradecer. Afinal, se tornam banais por estarem no nosso dia a dia e, por isso, nem nos damos conta do quão sortudos somos.

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Ana Carolina Villa-Flor Galvão é advogada, concurseira (e o que mais a vida mandar), inconformada, observadora do cotidiano e das pessoas e blogueira Contextual.

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