Ano novo, bom humor e zero de carência


Ela pegou um avião de Campinas a Salvador. Dormiu tarde. Acordou cedo. Ela pegou uma fila enorme para um ferry boat que liga Salvador à ilha de Itaparica. E passou quase uma hora viajando pela Baía de Todos os Santos. Ela lutou para pegar um ônibus em Bom Despacho com destino a Itacaré. E passou 4 das 7 horas do trajeto sentindo-se mal e vomitando. Ela chegou à Rua Pituba II, na pousada Bananeira Azul, mais de 10 da noite. E parecia que tinha acabado de acordar.

Estava leve, disposta. Feliz. Com um sorriso contagiante, uma beleza esfuziante e um pique improvável para um corpo tão pequeno e toda aquela maratona turística percorrida até ali. Depois de me espantar com chegada tão meteórica, tentei reparar mais nela. Mas as trilhas diurnas e as bebidas noturnas me impediam de chegar a qualquer tipo de conclusão.

Comecei a reparar mais a fundo em Neila apenas na manhã seguinte. No passeio à praia de Jeribucaçú. Enquanto esperávamos o guia, ela conversava e eu já achava tudo lindo, dos cabelos longos ao sotaque campineiro, dos olhinhos ligeiros ao corpo inteiro. Neila era a personificação do bom humor. E eu, a concretização do riso frouxo. A espontaneidade, as colocações divertidas, as respostas certeiras, os sorrisos escancarados me deixaram tão atônitos que ao entrar na van, minha única preocupação era se ela iria ou não sentar ao meu lado.

Não sentou. Mas durante o trajeto, primeiro até a cachoeira, depois até o mangue e mais tarde até a praia, nos entrosamos melhor. Percebi que tinha com ela uma incrível sintonia fina, muito bem ajustada no dial. Algo muito raro em minha vida. Foram muito poucas as pessoas com quem consegui ter tanta empatia em tão pouco tempo.

No dia seguinte, acompanhei Neila à praia da Concha, onde ela e outra amiga fizeram uma sessão de Stand Up Paddle. Depois excursionamos por outras 3 praias, sempre juntos. E o que era empatia, virou encantamento. À noite, durante a festa de réveillon, tentei me aproximar, olhar, fitar, dançar junto, paquerar, mas ela não deu muita abertura. Houve um momento em que ela se afastou, sentou-se na areia da praia e ficou olhando o mar. Eu me aproximei. Perguntei se podia fazer companhia. Ela consentiu. Conversamos um pouco sobre a vida. E eu declarei que estava muito feliz por tê-la conhecido. Que ela tinha sido meu último presente de 2015, um ano que já havia me enchido de grandes dádivas.

Quando chegamos à pousada, enquanto nos preparávamos para deitar em um quarto com 3 beliches e uma cama de solteiro, quase todos ocupados por pessoas já adormecidas, pedi para proferir mais uma sentença:

- Você é linda. – Ela sorriu. E respondeu:

- Assim você me deixa encabulada. – Eu sorri. E pedi licença para pronunciar uma última verdade:

- Acho que eu estou me apaixonando por você. – Ela nem titubeou:

- Isso é carência. Você está carente, eu estou carente. Isso passa. – Ela entrou no banheiro. Eu tentei dormir. Não consegui. Ela saiu do banheiro sem óculos nem lentes de contato e perguntou:

- Você tá olhando pra mim?

- Tô! – Ela sorriu, deitou e foi dormir. Eu fiquei acordado durante algum tempo ainda. Ainda mais encantado.

No restante da viagem, abri para o grupo que estava encantado por ela, fiz piadas, brincadeiras. Até a frase “isso é carência” virou uma espécie de memme entre os viajantes. E nós dois entramos no clima e também nos divertimos.

Eu só queria deixar as coisas mais leves. Aceitar sem reclamar que o fato de eu me interessar por uma pessoa não significa que ela também tenha que se interessar por mim. Entender que sentir, mesmo que sozinho, já é muito bom. Que é muito melhor viver o lado legal do romance do que a sua face mais chorosa, melancólica, reclamona, chata. Como a própria Neila teria dito, melhor manter o bom humor do que forçar um mau amor.

E dessa forma, eu mantive intacta a minha relação com ela, sem machucar ninguém, sem pôr em risco nossa sintonia. Não ganhei uma paquera de verão, mas conquistei uma amiga. E para quem há duas semanas nem a conhecia, confesso que saí no lucro. Carência? Não. Desejo. Vontade. Verdade. Bom humor. E gratidão. Que seja sempre assim.

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Mário Garcia Jr. é blogueiro Contextual, publicitário, metido a cozinheiro, joga bola de teimoso, mas gosta mesmo é de escrever.

#MárioGarciaJr

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