Até que a morte nos separe


Que linda é esta frase não?! Aposto que muitos já tiveram a oportunidade de ouvi-la pelo menos uma vez.

Mas será que a morte é mesmo capaz de tal separação? Será que ela é forte o suficiente para isso?

Sei o que vocês devem estar pensando, mas o meu objetivo aqui não é falar de religião, pelo menos diretamente, mas refletir sobre a terminalidade. Não tenho pretensões diante de um tema tão polêmico e controverso. Meu objetivo é apenas despertar uma reflexão.

Antes de falar do que pode ser o término da vida, é preciso saber qual o significado desta palavra para cada um. O que significa viver para você? Você acredita no conceito biológico de um organismo capaz de manter suas funções vitais natural ou artificialmente? Ou acredita que viver é poder sorrir ao ver pessoas amadas, se emocionar ao ler um livro, ajudar seu filho a aprender a caminhar, abraçar a que sofre ou mesmo encarar e desafiar a morte dizendo “não, ainda não é a sua vez”?

Se você acredita no conceito biológico, pare de ler agora mesmo.

Aí você me pergunta: mas, como médico, como você não acredita no conceito biológico da vida? Então eu lhe digo: justamente por conviver diariamente com esse limite tênue, eu não acredito que células vivas se encaixem no meu conceito de viver.

Com os avanços da ciência médica, dispõe-se hoje de inúmeros recursos para tentar manter um organismo vivo a “todo o custo”, mas, como ser humano, eu confesso que é bastante doloroso presenciar essa luta diária e repartir esses momentos com as famílias e amigos, muitas vezes assumindo o papel de portador da verdade absoluta naquele momento.

Mas você excluiu o paciente deste papel? Sim, pois muitas vezes a quantidade de drogas e dispositivos é tão grande que o impede de manifestar qualquer forma de expressão.

Às vezes ponho-me a pensar em quanto sofrimento pode haver, no quanto as lembranças felizes de uma vida se transfomam em dor, para alguém cujo pensamento esteja restrito a quanto tempo mais possa resistir a tal combate.

Confesso que já vi lutas serem ganhas, mas a maioria infelizmente perde nos rounds finais, às vezes depois de muito sofrer.

É angustiante ver a aflição de todos, que diante de tal situação apegam-se a tudo que é possível, até em coisas que eventualmente não acreditem, na tentativa de ter a pessoa amada de volta ao seu convívio. Nada do que possa ser dito é capaz de despertar qualquer dúvida ou estremecer a sua convicção de que tudo dará certo.

Não estou falando aqui daquele paciente em que nós mesmos buscamos por um milagre, mas daqueles que necessitam de um alento, que muitas vezes não precisam da opinião de médicos para perceber que, naquele momento, só existe dor e a única coisa que os prende à existência é o amor e o apego das pessoas amadas, sem sequer imaginarem o quanto de sofrimento pode existir até que suas células não suportem mais.

Não vou excluir a nossa culpa, afinal o despreparo de tantos, o descrédito em todos os profissionais da saúde, a falta de informações e uma série de outras variáveis tornam esse conceito extremamente frágil, assim como a relação do profissional com a família.

Muito triste tudo isso, não é?

Mas então porque insistimos em manter nossos entes queridos presos a tal sofrimento, diante da falta de perspectivas? Será que não é muito egoísmo pedir a Deus por um milagre que tantos aguardam e necessitam? Será que ausência física fará desaparecer o amor, a felicidade e tudo mais que essas pessoas significam para todos que conviveram com ela? Será que a morte é capaz de tal feito? Será que ela merece todo esse temor?

Como disse, estou longe de estar certo ou errado, mas se pude fazer você refletir um pouco, tenho certeza de que, se o destino lhe colocar em tal situação, suas concepções poderão ser um pouco diferentes...

Todos nós sabemos perfeitamente o que é viver bem, mas será que temos a capacidade de saber morrer bem?!

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Fabio Costa é médico de profissão, apaixonado pela fotografia e amante de viagens pelo mundo e pelo pensamento. Agora um humilde contribuinte blogueiro contextual.

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