Se for naufragar, não se barbeie.


Teoria sobre uma pergunta que eu tenho que responder quase todos os dias.

Sim, eu naufraguei. Sim, passei fome, frio e calor em cima de um bote inflável. Sim, disputei peixe cru com aves gigantes. Sim, suportei tempestades e temperaturas extremas. Sim, enfrentei tubarões famintos e a solidão profunda. Sim, gritei como um louco, chorei feito criança apavorada, gargalhei igual a um maluco. Sim, convivi com pesadelos e inimigos imaginários. Sim, clamei por ajuda, procurei saídas aéreas e submersas. Quase encontrei a insanidade total. Mas depois que desisti de me salvar, a maré me levou e eu encontrei terra firme. E sim, eu me curei. De todas aquelas feridas que foram regadas por meses pelo sol escaldante e temperadas diariamente pelo sal dilacerante.

Hoje estou bem. Restam algumas cicatrizes, mas ao sair do mar, a carne viva secou. E a alma seca se lavou e voltou a viver. Acostumei-me com o terreno. Transformei-o em meu terreiro. E certeiro, aprendi. Sei onde pisar. Onde pular. Onde conseguir comida. Onde tem sombra, água fresca. Onde tem aventura, beleza. Onde encontrar inspiração, poesia. Onde plantar dúvidas e extrair certezas. Onde presentear as vistas e iluminar as sombras. Onde renovar almas e onde enterrar fantasmas. Onde é perigoso e onde é precioso. Onde o caminho é tortuoso e onde é preciso. Onde encontrar o que é saudável e o que devo evitar. Onde esconder e onde não ser encontrado. Onde me fortalecer e onde me sentir devassado. Onde mergulhar, me encolher. Onde extrapolar, florescer. Guardei memórias desagradáveis em lugares inóspitos para nunca mais querer encontrá-las. E comecei a cultivar novas lembranças, mais coloridas e cheirosas, nas sacadas das minhas janelas. Aprendi a manter distante e destoante o que é passado. E desenvolvi a capacidade de me aproximar e me apaixonar apenas pelo que é agora.

Fiz a cartografia completa do meu estar. Desenhei meu mapa terral. Vez ou outra ainda me perco. Pego uma via errada. Às vezes por inocência, às vezes por imprudência, às vezes por descuido ou ignorância. Mas, paciência. Não almejo a plena ciência. Não me planto. Me espanto. Nos passeios diários que faço, arrisco encarar o oceano de novo. E novo, singro o mar. Não evito tempestades. Mas também não procuro por bonanças. Sigo a maré. Já sei como navegar minha nau. Sentir o vento. Interpretar as estrelas. Ler a bússola. Seguir a rota certa. Desviar das rochas. Tapear piratas. Tapar os ouvidos para o canto das sereias. Velejo quando quero. E quero sempre mais. Arrisco distâncias cada vez maiores. Não sou mais um náufrago. Estou aterrado, sim. E se não faço a barba é porque não estou afim.

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Mário Garcia Jr. é blogueiro Contextual, publicitário, metido a cozinheiro, joga bola de teimoso, mas gosta mesmo é de escrever.

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