(Des) Encontros

Ano de 1969. Alguma cidade do interior de Minas. Ela só tinha 12. Ele 18. Ela não sabia beijar de língua. Ele era ariano. Ele olhou prá ela de um jeito diferente. Não entendeu porque aquela adolescente magrela mexeu tanto com seu coração. Ele tocava violão. Ela acertava os compassos. Completava os acordes. A roda de serenata foi se esvaziando. Ficaram só os dois, mas eles não perceberam. Entraram em outro planeta. Ele não sabe dizer em qual música dos Beatles aconteceu o beijo. Nem de quem foi a iniciativa. Ele só lembra do violão no seu colo. Mudo. Da tremedeira e do sinos no ouvido. Ela só recorda do arrepio na nuca e de que 4 horas passaram em 5 minutos. Depois disso ele levantou atordoado, cheio de pressa. Melhor você ir para casa. Pqp, uma menina...Passou na UNB, seguiu seu caminho. Mas levou com ele aquele gosto. Vez por outra lhe vinha na boca. Ela carregou a voz, o toque e o abraço. Passaram 8 anos. Outra cidade do interior. Desafiando o improvável, um novo esbarrão. Dessa vez, dois jovens intempestivos, beberam, dançaram, conversaram, beberam mais e uma noite virou um ano. Acordaram abraçados numa cama de República. No dia seguinte ele viajou de volta a Brasília com o violão e todos os detalhes de um encontro incrível de corpos e almas. Nunca mais soube dela. Nem ela dele. Ele guardou, não sabe porque, a data do aniversário da jovem mulher: 23 de maio. E ela, um foto, que ocupava o lugar de honra no seu álbum de memórias. 33 anos depois, ele um arquiteto famoso e estabelecido, casado, 3 filhos, recebeu um telefonema em plena quarta-feira... J, você lembra de S? Aquela mineira... Ela está aqui conosco jantando, venha! Nada mais foi dito. Ele não sabe dizer porque levantou da cama e foi. Esse novo encontrou balançou tudo o que ele tinha de mais sólido. E o tempo parou. Lembra daquela noite que passamos juntos? E ela: não! Sorriu, divertida. Uma bem sucedida Consultora, 53 anos, cabelos curtos, independente, um filho, nenhum casamento, muitas viagens, tantas outras histórias. Conversaram, conversaram. Descobriram que todos os acontecimentos de suas vidas convergiram para aquele momento, as linhas do inexorável entrelaçadas de uma maneira inexplicável. Um jantar virou dez jantares, uma noite uma semana, um mês um ano... Resolveram tudo, enfrentaram rompimentos e seguiram.


22 de janeiro de 2016. Barra Grande, Bahia. Estão juntos há cinco anos. Quando se olha para eles, a mão de um toca a perna do outro. Dividem tranquilamente uma taça de vinho e conversam sorrindo. No lugar dos olhos, estrelas; a cumplicidade dos dois é uma troca que somente aqueles que conheceram o amor em sua completa dimensão pode entender.

Tudo no seu devido lugar, finalmente.

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Erica Sakaki, blogueira Contextual, vinhólatra, mãe, oficial de justiça, leitora compulsiva, apaixonada por gente, pela vida e pelas voltas que ela (sempre) dá.

#EricaSakaki

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