Garotos não choram


Cravo meus dentes em uma maçã recém colhida da geladeira, aperto play em um device recém chegado da China e deito em meu colchão de molas ensacadas recém comprado na Casas Bahia. O teto parece se aproximar. Querer me assustar. Me dando a impressão de que pode cair e me esmagar a qualquer momento. A cabeça dói. E a voz de John Lennon gritando “mother, you had me, but I never had you” não ajuda em nada.

Alcanço o botão do shuffle e mudo de música. Uma brisa fria entra pela janela. Inspiro vento gelado, transpiro arrepios, fecho os olhos e lembro de quase tudo. Da dor que senti quando ela me disse que não poderia me acompanhar naquela noite. Que tinha outro compromisso. Que já havia marcado há meses. Encontro com amigas de infância em um bar suspeito na orla da Pituba. Lembro do quanto tentei força-la a ver como aquela noite era importante para mim. E o quanto ela foi categórica ao deixar claro, mais uma vez, que eu não era mais importante do que ela na sua vida.

Maldita independência. O que me fez apaixonar por ela? Só fazia o que queria. Quando queria. E dizia estar agindo daquele jeito para preservar nosso relacionamento. Que abrir mão de algumas coisas em nome do outro acaba gerando uma dívida que, aos poucos, torna-se impagável. E que ela não queria isso para a gente. Não queria uma vida a dois no vermelho, algo tão normal em casais iguais, dos tipos que aparecem em novelas, sessões da tarde e praças de alimentação de shopping centers. Desses que estão sempre brigando para ver quem finge felicidade melhor que o outro. E em nome deste pretenso diferencial, desta sonhada superioridade, desta calculada maturidade, acabava comigo em todas as trocas de argumentação. E ainda me acusava de ser cool no visual, cult nas salas de arte, mas que, na intimidade, não passava de um macho branco, ocidental, trivial, quase banal. E depois de extensas discussões, para jogar a derradeira pá de cal, gostava de repetir em voz alta para todo mundo ouvir: eu não preciso de você nem de ninguém para ser feliz!

Filosofia de botequim. No início concordei com aquilo tudo. Achava até legal, quase sensual. Servia para tirar onda com amigos, alardeando que fazia parte de um relacionamento adulto, maduro, longe do convencional. Mas com o tempo... Eu só queria que ela fosse louca por mim. Que não conseguisse fazer nada sem mim. Que não tivesse interesse por nada que não me incluísse. Que... Que monstro eu sou. Lembro das besteiras que falei. Dos palavrões que gritei. Das pragas que joguei. Estava arrependido. Triste. Encolhido. Ouvindo The Cure e procurando a cura para aquele mal. Mas como voltar atrás sem soar inseguro? Como passar por cima de tanto orgulho? Na caixinha de som importada, Robert Smith cantava “I would say I'm sorry / If I thought that it would change your mind / But I know that this time / I have said too much, been too unkind” enquanto eu só queria chorar. Um choro travado pelo refrão que que não cansava de repetir para me lembrar que garotos não choram.

“Misjudged your limits / Pushed you too far / Took you for granted / I thought that you needed me more…”

Encarando o teto, procurando alento e força para rir de tudo aquilo, ainda busco saída em pop songs memoráveis, tento encobrir a verdade com mentiras agradáveis. Me convencer de que o erro estava com ela e não comigo. Que sou um homem normal. Que qualquer um no meu lugar agiria da mesma forma. Mas quanto mais tento me enganar, mais tenho vontade de chorar. Travo a emoção, respiro fundo, engulo o prato indigesto da humildade, explodo em olhos vermelhos e sigo a madrugada “Hiding the tears in my eyes / 'Cause boys don't cry / Boys don't cry.”

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Mário Garcia Jr. é blogueiro Contextual, publicitário, metido a cozinheiro, joga bola de teimoso, mas gosta mesmo é de escrever.

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