O troféu


A cozinha era pequena, com chão de piso preto e branco, preto e branco, branco e preto. Nesse jogo de xadrez fazia desenhos mentais de casa, flor e sol. Naquele tabuleiro de damas reinava minha mãe, dama-mor das panelas, temperos e cheiros.

A correria era parte do dia-a-dia, as brincadeiras de boneca, o baleado com os vizinhos, o quintal imenso que abrigava os bichos e as fantasias. Seria mesmo tão grande assim? O porão escuro, onde viviam as jias e o medo. A mata atrás da casa, um mundo de segredos e aventuras e mistérios.

Jacas, goiabas, jenipapos, peixinhos-piaba nos laguinhos. Os olhos d’água que me olhavam com aqueles olhinhos translúcidos e borbulhantes e me ensinaram de perto como um filete pode virar rio e alcançar o mar.

A infância era uma descoberta sem fim. Era a escola e era a rua, os amigos e os irmãos, pai e mãe, (dis)sabores.

Dos sabores, o tomate sempre teve um gosto especial. Entre idas e vindas, nas correrias da meninice, pedia a minha mãe um tomate. Ela cuidadosamente lavava um e me dava. Naquele momento, uma luz preenchia a cozinha e minha mãe virava Santa. Bastava seu toque e um milagre acontecia. O seu olhar doce dava novo e requintado sabor à fruta. O vermelho resplandecia na casca fina e brilhante. A mão que me oferecia o fruto era uma cesta de dádivas. No seu rosto, uma coisa boa que não sei o nome. Bem-estar de mãe que alimenta a cria? Outros nomes para amor? Os outros nomes de Deus?

Punha-lhe uma pitada de sal e devorava o dito com o prazer de criança desfrutando um brinquedo novo e ansiado. O gosto genuíno e orgânico da alquimia da terra, água, semente, sol. Sem qualquer pretensão de ser mais do que é. Porque apenas é.

A polpa macia e doce, os carocinhos que eu inspecionava com a perfeita curiosidade de passarinho diante da fruta no pé. Simples e feliz como uma feira de sábado de manhã, aquela merenda se tornava algo mágico na qual se escondia o que não pode ser explicado, mas apenas sentido.

Pedia mais um e mais um eu ganhava. Era sempre sim. Minha mãe nunca me negou um sequer, o que me dá a certeza de que o tomate guarda o sabor inigualável de pedidos deferidos. A sensação boa de que tudo é possível.

Volto àquela cozinha quando alcanço algo. Sinto na alma o sabor dos tomates misturado ao cheiro dos temperos da minha mãe. Com eles celebro vitórias e alegrias. O meu prêmio, minha medalha de honra, o meu sim de mim para mim. Noiva apaixonada, me entrego e me delicio. A luz se faz outra vez. Olhos d’água brotam nos olhos.

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Maria Angélica Pereira, mulher, Oficiala de Justiça, viajante do mundo e da alma, amante do riso, otimista incurável e blogueira Contextual.

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