A Farsa do herói Tiradentes: um case de Marketing


Herói nacional, tema de séries e histórias de bravura e insurreição, teria a vida de Tiradentes feito jus ao símbolo nacional a ele atribuído? Segundo o escritor francês Balzac, há sempre duas histórias: a Oficial, que é mentirosa e a Verdadeira, que é tende às sombras. A história sempre foi escrita por aqueles que prevaleceram, seja no plano econômico, seja no campo de batalha. Com isso, não raramente surgem distorções e discrepâncias. Figura de controversas interpretações, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, não fugiu a isso.

Tiradentes era um alferes - equivalente ao que se chama hoje de segundo tenente - e tinha como tarefa fiscalizar o contrabando do ouro na região das minas. Condenado como conspirador e agitador, teria sido oficialmente deixado na vala dos criminosos que atentaram contra a dinastia de Bragança por todo o Século XIX, período do Império brasileiro. No entanto, quando a República foi proclamada era necessário romper com a história contada pelo Império que tinha em sua gênesis o grito do Ipiranga, bradado por D.Pedro I, pai do deposto e banido imperador D.Pedro II. Como justificar historicamente que os descendentes do pai da pátria tenham sido expulsos do país? Era necessário encontrar uma nova origem para o Brasil. Foi precisamente nesse momento que Tiradentes deixa de ser um condenado conspirador e passa a ser tratado como o mártir republicano como se fora alguém que já no século XVIII sonhara com um Brasil livre, substituindo assim a imagem do brasileiro associada até então a de um índio, graças principalmente a obra “O Guarani” de José de Alencar, e dando referência popular a posteriori ao movimento de independência do Brasil. A figura do Tiradentes mártir, de barba ou bigode jamais existiu. Esta imitação de Cristo, foi definida – pasme – quase dois séculos depois, por meio da Lei Federal 4897 de 1966 pelo então presidente Castelo Branco. Eis um breve resumo da farsa por trás da história e imagem de nosso herói nacional.

1756 talvez seja o ano mais importante, e menos lembrado, como estopim para a chamada Inconfidência Mineira. Com o grande terremoto que assolou Portugal nesse ano, Lisboa foi praticamente destruída. E caberia ao Brasil os custos da reconstrução da capital portuguesa graças a ideia posta em prática pelo Marques de Pombal da cobrança de 1/5 de todo o ouro pelo prazo de 10 anos. Curiosamente, o que deveria ocorrer por uma década, estendeu-se, ao invés, pelos seguintes 60 anos. Enquanto ocorria o apogeu do ciclo do ouro, o alto imposto não significava maior problema, mas com o declínio das minas e manutenção do alto custo de vida na colônia, o peso desses impostos para os contribuintes mineiros aumentou significativamente. O estado português por sua vez, ao deparar-se com a redução na arrecadação, passou então a estabelecer uma cota fixa para Vila Rica da ordem de 1.500 kg de ouro que deveria ser arrecadada em detrimento da produção e por qualquer que fosse o meio. Quando a exigência não era cumprida, acontecia a Derrama, pela qual soldados da Coroa entravam nas casas das famílias para retirar os pertences até completar o valor almejado.

Se houve um pano de fundo para o movimento com alguma relação com a história nos livros, por outro lado, boa parte do que lemos não é. Ninguém sabe, por exemplo, quem foi o verdadeiro líder da revolução. Sabe-se, sem sobra de dúvidas que foi um movimento maçônico que lutou pela independência do país e contou com homens como o Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, o engenheiro José Alvares Maciel, o poeta e coronel Inácio José de Alvarenga Peixoto, o poeta e magistrado Tomaz Antônio Gonzaga, e outros, e que exatamente pela gênese maçônica do movimento o delator Joaquim Silvério dos Reis chegou a sofrer um atentado no Rio de Janeiro, sendo perseguido em Minas Gerais e fugindo para Portugal, onde por sua vez acabou por ser homenageado, condecorado e presenteado com pensão mensal de 200 mil reis, além do acesso a corte.

A ideia de que Tiradentes foi um grande herói faz parte da construção artificial de um mito - uma farsa! - assim como é descabida a imagem a ele associada de que fora um pobre e ignorante. O alferes Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes por seus conhecimentos como dentista, não parece ter sido nem uma coisa nem outra. De pobre não tinha nada. Podia não ser o mais rico dos inconfidentes, mas tinha fazenda e escravos, além de ser sócio em uma botica. Dizia-se, inclusive, ser ele genro do maior contrabandista de ouro e esmeraldas de Minas e Goiás. Possuía talento não só no tratamento dentário, mas na produção de remédios. Não era o mais estudado entre os conspiradores, mas era interessado e lia muito. Esteve em todas as reuniões nas quais a Inconfidência foi tramada. Não estava entre seus líderes intelectuais, mas usou o símbolo da maçonaria para criar o triângulo que adorna a bandeira dos inconfidentes e que não por acaso acabou por eleita para ilustrar a bandeira do estado de Minas Gerais nos tempos atuais.

Mas havia uma ideologia, um projeto de nação por trás do movimento em si, ainda que houvesse um campo bastante cinzento quanto a se seus membros estavam ali por ideologia de fato, ou por interesses meramente financeiros e particulares, o que optou-se por omitir de nossa história oficial. O padre Rolim, por exemplo, era um contrabandista e tido por mau-caráter notório, pensando no movimento exclusivamente como meio de manter seus negócios. Já Tiradentes parecia um pouco dos dois mundos. Por vários momentos dava a impressão de ver na Inconfidência o potencial para criar uma espécie de novo Brasil, mas não escondia a influência de seus interesses pessoais. Tinha interesses financeiros claros em jogo, além de parecer sentir-se também frustrado com a ausência de oportunidades de ascensão na hierarquia militar e de chances de mostrar tudo o que tinha a oferecer – apresentou, por exemplo, projetos de canalização de rios cariocas, que nunca foram aprovados, os quais, é bem verdade, podem ter sido usados como desculpas para seus encontros com demais maçons ali.

Há duas versões para a sua morte. A primeira e mais próxima da versão oficial diz o seguinte: “Tiradentes é enforcado também porque é réu confesso, os outros não são. Mas os degredos são pavorosos. Portugal nunca tinha dado penas tão severas. O interessante é que não prende nem julga ninguém do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Porque, se a Coroa começasse a prender e julgar os principais membros de todas essas elites, criaria uma situação incontrolável de revolta. Mas ao pegar apenas a elite de um desses lugares – e, no caso, foi a mineira, estabeleceu uma punição exemplar. Portugal foi muito hábil nisso”, avalia Pedro Doria no livro “1789 – A história de Tiradentes e dos contrabandistas, assassinos e poetas que lutaram pela independência do Brasil” (editora Nova Fronteira, 2014).

Mas uma segunda versão bastante distinta e corroborada por vários historiadores aponta para indícios monumentais de uma fragorosa mentira. Segundo o pesquisador Plínio Matos, por exemplo, “o enforcamento atribuído a Tiradentes se deu em 1792 no Rio de Janeiro, com a trama do exílio dos inconfidentes e da atribuição de culpa exclusiva a Tiradentes, que seria o bode expiatório. A armação teria sido muito bem feita e Tiradentes fora substituído por um ator de circo, o Sr.Renzo Orsini, que resolveu fazer o seu último papel, isto é, ser enforcado no lugar de Tiradentes”. E jamais, além dos livros de história oficiais, houve qualquer esquartejamento de quem quer que fosse relacionado ao movimento em si.

Já o historiador Assis Brasil vai além e cita a menção feita por Machado de Assis, quando escreveu que Tiradentes morrera de um antraz - bacilo infeccioso que produz pústula maligna - enquanto morava no Rio de Janeiro, na antiga Rua dos Latoeiros, que ficava entre a Rua do Ouvidor e Rosário, em uma loja de barbeiro, sendo que Tiradentes era dentista e sangrador - uso antigo de sanguessugas e sangramento - cuja abertura de negócio havia se dado em 1810 a conselho do próprio D. João VI.

A Revolução Americana havia acontecido uma década antes, enquanto a Revolução Francesa estaria para começar ainda naquele ano de 1789. Já a Revolução Brasileira tal como se supõe sonhada pelos inconfidentes não teria acontecido por dois dias. Os planos seriam o de deflagrar o movimento no dia da execução da Derrama. Mas a Derrama acabou por ser cancelada dois dias antes da data marcada, esfriando o movimento. “A Inconfidência não aconteceu por muito pouco. Se tivesse acontecido, a história não falaria sobre duas revoluções republicanas que mudaram tudo no século XVIII, e sim sobre três: a americana, a francesa e a brasileira”, acredita Doria.

Com o fracasso da conspiração dos mineiros a maçonaria brasileira, muito sabiamente ficou quieta até melhor oportunidade, reaparecendo na Revolução Pernambucana de 1817 e que também fracassou. Novamente em 1822, a mesma proporcionou a Independência do Brasil.

Se há muitos elementos omitidos ou repaginados quanto ao movimento inconfidente, parece não restar muita dúvida quanto a Tiradentes e sua história oficial não terem sido muito além de uma grande farsa sobre um contrabandista com atitudes e trejeitos à semelhança dos políticos atuais, mas que com o tempo renasceu nos livros para tornar-se símbolo do movimento inconfidente e virar herói.

Como se pode ver, a história Verdadeira é bem mais interessante, embora muitas vezes por comodismo optemos pela leitura e reprodução da história Oficial.

Tiradentes: um belo case de marketing. Não muito além.

Bibliografia:

Doria, Pedro. “1789 – A história de Tiradentes e dos contrabandistas, assassinos e poetas que lutaram pela independência do Brasil”, Editora Nova Fronteira, 2014.

http://www.passeiweb.com/estudos/livros/inconfidencias_mineiras

http://www.colegioleonardodavinci.com.br/noticias/cabral-indios-tiradentes-como-fabricam-se-os-herois-de-uma-nacao

http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/um_tiradentes_sem_barba.ht

http://almanaquearrebol.blogspot.com.br/2015/04/presenca-de-tiradentes-no-pouso-do.html

http://www.pliniotomaz.com.br/downloads/tiradentes.pdf

http://portalconservador.com/tiradentes-um-dos-mais-graves-enganos-da-historia/

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Bruno Frossard, e blogueiro Contextual, um curioso inquieto sobre temas que passeiam pela formalidade da política, a ortodoxia da economia e singularidade da fé.

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