Louco da rua

Todo bairro tem um louco. A afirmação parece generalista demais, mas é verdade. Na banca de jornal, no meio da rua que eu moro, sempre as mesmas pessoas ficam conversando com o jornaleiro de manhã cedo.

Eu desço para comprar frutas na barraquinha da outra esquina e é comum ver o mesmo morador do prédio da frente conversando com o segurança da escola abandonada, ambos sentados em cadeiras velhas, interessados um no papo do outro. Eu passo, olho, saúdo estendendo o polegar e vou embora.

A baiana que ficava na esquina morreu. Por muitos anos ela ficou no mesmo pedaço da calçada e havia um cara que sentava sempre ao seu lado. Depois da morte, o cara nunca mais apareceu na rua e nenhum outro negócio tomou o lugar que era dela na calçada, o espaço que era da baiana, como se houvesse um acordo tácito de se respeitar uma morte recente.

Tem um bar também na rua. Sempre tem um cara de camisa e calça social que bebe no balcão, todo dia, como se bebesse fazendo uma oração, pontualmente. Soube depois que ele trabalha no Banco do Brasil, detalhe que não faz a mínima diferença. Se é louco também eu não sei, mas todo bairro tem um, e ele é igual a todos os outros.

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João Mendonça é blogueiro Contextual, jornalista e tem 39 anos. Sua diversão é fazer textos que contribuam para alguma coisa que ele não sabe o que é. O que ele mais gosta são as curtidas. Quando acontecem ele comemora como um gol do Bahia.

#JoãoMendonça