Sob pressão


Chego em casa excitado. Exaltado, corro pra janela. Solto uma voz dissonante à dos meus vizinhos de classe média, mais propensos a gritar através de panelas. Penso em me jogar, me soltar em pleno ar. Chego a acreditar que posso voar. Incrível como ir para a rua, entrar numa luta por tudo o que se busca me renova, comove, remove minhas estribeiras. Fecho os olhos e me vejo de novo no meio da praça entre gritos e camisas vermelhas, atiçando sonhos, içando bandeiras. Desisto do voo irresponsável. Desligo o grito até então irrevogável. Em um salto, chego à minha pilha de LPs, alcanço Hot Space, reforço minha mania de começar a ouvir álbuns sempre pelo lado B e vou tomar um banho.

Saio do chuveiro fazendo dupla com Fred Mercury, em alguns versos de Las Palabras de Amor, grito de leve “let me hear the words of love”. Da porta da cozinha, alcanço a porta da geladeira. E sem sair das fronteiras da sala de estar, pesco uma cerveja gelada no congelador, giro a tampinha de uma vez, viro os 355ml em uma única golada e tiro a sede da garganta ainda profana que canta sem dó “let us share the words of love / for evermore, evermore / for evermore.” Depois de abrir a segunda long neck ainda amarela, volto para a janela. É quando começa a tocar Cool Cat, a música preferida dela.

Ela é Daniela. Minha namorada. Ou ex. Não sei mais. Depois de tanto dar certo, criamos uma crise institucional, política, emocional, econômica, social... começamos a nos esforçar para fazer dar errado. Mas eu ainda a amava. E todas as vezes em que ouvia o Queen, me lembrava. E quando tocava Cool Cat, eu até chorava. É que ela adorava. E com as expressões mais engraçadas, cantava enquanto dançava e deslizava pelo tapete de pele da sala. E depois da música acabada, ainda repetia em voz alta enquanto me encarava: “you’re a cool cat messing with the beat of my heart.”

Derramo na goela o que ainda resta na botelha e corro em busca da terceira cerveja. Com todos os pelos em suspenção, toda a pele em erupção, coração sem ação, alma em ebulição, não resisto. E com o telefone na mão, pés batendo nervosos no chão, cheio de fúria e razão, de supetão, insisto. Na primeira, ela não atende, na segunda, nada acontece, na terceira, não espero mais nada. Parecia não estar em casa. Desisto. Até os primeiros acordes de Under Pressure invadirem o recinto. E tudo começar a fazer sentido. Sentimento se partindo e se reunindo. Vaso que vira mosaico rasgado em pedacinhos. Em cada nota um momento, de verso em verso, sendo costurado. A cada toque de tecla do piano, uma volta ao nosso passado. Sem escolta nem cuidado. Uma memória que rodopia leve, louca e anacrônica. É quando decido ligar de novo e deixar uma mensagem na secretária eletrônica:

- O fato... é que... eu não entendo você não estar do meu lado. Parece que tá tudo errado... parado... trocado... é como cigarro sem trago, comida sem prato, toque sem tato... tá tudo embaralhado... embaraçado, destroçado dentro de mim. Eu sei que agi errado, que fui um pouco exagerado, que usei um discurso enviesado quando você resolveu bater panela na varanda, enquanto Dilma falava na televisão. Mas eu já pedi desculpa, reconheci que foi um ato desorientado... e você também não precisava rasgar todas as minhas camisas vermelhas do armário enquanto eu estava no trabalho! Aquilo foi muito chato... uma forma boba de atentado. O fato... é que... eu não entendo você do outro lado... A gente era só adolescente, eu sei, mas lembra? Na morte do Tancredo, como a gente chorou abraçado? E como festejamos na escola a constituinte de 88, você lembra? Poxa, a gente foi pra rua tirar Collor da presidência, gritamos juntos que o povo não é bobo, abaixo a rede globo, elegemos Lula... Eu sei que você não gosta da Dilma. Até concordo que o PT traiu a gente... tá, ela não é mesmo uma grande presidente. Mas o que está acontecendo agora... é muito mais que uma questão partidária, ultrapassa relações de antipatia ou simpatia... não é pelo PT, Lula ou Dilma... é pela democracia!

Desligo o telefone quase sem respirar. Vou ao 3 em 1, recoloco a agulha entre as faixas 5 e 6. Under Pressure começar a tocar outra vez. Inspirando fundo me inundo. Expiro forte. Um corte profundo. Viro outra cerveja em poucos segundos. Ligo mais uma vez em busca de sorte. Mas o que ouço é um som mudo. E mais uma vez ela não atende. Continuo insistente, deixando recados como se fosse algo urgente:

- É muita pressão, eu sei... é um tempo difícil... uma guerra política que divide uma família em duas... que coloca amigos em lados opostos da mesma rua! Estamos todos sob pressão. Eu... eu queria ser ingênuo ou ignorante, mas não sou! Sofro o terror de saber do que realmente este mundo é feito. Vejo amigos pedindo pra sair correndo, idiotas reacionários vendendo ilusão, enquanto o sistema viciado parece querer chutar meu cérebro pelo chão! O povo sonhando ser representado no congresso, enquanto bancadas evangélicas, da bola e da bala, bancadas por babacas governam em benefício próprio! Eu preferi não me afastar de tudo como se fosse um cego. Não sentei no muro dos indiferentes... eu não prego... mas não nego... eu só quero... o que é certo... mas... certo... ok, confesso: tudo isso... ah, tudo isso é só política. Política apenas. E apesar de todas as diferenças, eu te amo! Eu te amo, porra! E mesmo exaltando dor, assaltando horror, insultando flor, continuo exalando amor, mesmo ele estando tão rasgado... tão... despedaçado. Não podemos ceder. Por que? Por que? Por que não podemos dar mais uma chance ao amor? Por que não podemos apenas dar amor?

- Amor?

- Amor? É você? Você tá aí?

- Há algum tempo. Você tá ouvindo Hot Space, né?

- Sim, Under Pressure.

- Eu sei...

Depois de um tempo em silêncio, ouvindo a música juntos, ela começa a cantar baixinho, quase sussurrando, acompanhando David Bowie e me arrepiando todo:

- ‘Cause love’s such an old fashioned word / and love dares you to care for / the people on the / edge of the night and love dares you / to change our way of caring about ourselves.

- Esta é a nossa última dança. E eu não quero dançar só. Vamos dançar nossa última dança. Sem pressão. Só nós dois. Sem pressão.

- Tudo bem. Só nós dois. Sem pressão.

-

Mário Garcia Jr. é blogueiro Contextual, publicitário, metido a cozinheiro, joga bola de teimoso, mas gosta mesmo é de escrever.

#MárioGarciaJr

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