Quarta de cinzas


Quarta de Cinzas...16:53.

Ela está sentada na escada que desce para a praia da Barra. Céu azul , quase não venta. Cansada, relembra o turbilhão dos últimos 5 dias.

Ali na frente, no meio da rua, um pedaço de serpentina cor de rosa. Pisca o olho prá ver direito. Coisa mais antiga!!! Ainda existe isso? Lembra minha avó. Sorri.

Passa um vendedor de isopor na mão, doido para esgotar seu estoque, pelejando com as últimas latinhas... O olhar de azeviche é cansado, mas o ar, sorridente. Dentes tão brancos, que lindos! Ela observa o precioso marfim.

Relembrou o colorido das ruas, a música vibrante que mexia com cada fibra sua, arrepiando os pelinhos do braço, fazendo pulsar forte seu coração.

Uma buzina estridente a tira do devaneio. Bem na hora que os caras da capoeira começam uma pequena roda. Olha no relógio... Quase 18hs. Vixe, como foi que passou tanto tempo? E eu aqui perdida nesses pensamentos sem pé nem cabeça.. Ai meu Deus, será que mais alguém nesse mundo é desse jeito? Cadê minha objetividade? Viaja acordada e se perde no tempo... Daqui a pouco o por do sol. Não sabe se sobe a ladeira e vai até a varanda do lado do Yatch que tem um campo de visão massa, ou se corre até o Farol, prá sentar naquela grama e pegar os últimos raiozinhos, beijando o cangote da lua. Ela hoje está fininha, daquele jeito de sorriso. Lua nova. Nova como o ano que recomeça, na verdade começa, em todo fim de carnaval. Tira uma mecha de cabelo da testa, ainda úmido do banho de mar que tomou junto com ele, está ardida e vermelha do sol e da boca que passeou na sua pele, numa doce queimadura. Ela acaba não levantando. Fica tentando entender o que foi que aconteceu... Seu coração batendo descompassado, revirando no peito e a sensação de que pode chorar a qualquer momento...Mas não está triste...É isso que ela não entende.

Feliz com cada instante, cada lembrança do que viveu ao lado do rapaz moreno, de traços fortes e sorriso largo, que apareceu em sua frente lá em Ondina, bem na hora que passava o trio da Timbalada quando ela, toda espremida entre o vendedor de Schin e duas meninas gordinhas, tentava dançar , pular, cantar a música, olhar prá cima e dar tchau pro cantor.

Ele ia passando sozinho, quase levado pela multidão do lado de fora da corda, aí olhou de relance para o lado e sentiu um choque. Deu meia volta. Não sabe dizer o que lhe chamou a atenção. Ela não era tão nova. O cabelo não era tão liso. Não tinha olho verde nem azul. Nem gorda nem magra. Umas sardas no rosto. Estatura média. Comum, bem comum. Nem bonita, nem feia. Mas ela sorria diferente. O olho brilhava. A felicidade dela parecia tão viva, tão forte, ele quase podia pegar. E de repente, nada parecia mais importante do que segurar aquela menina. Nada mais urgente do que passar a mão em seu cabelo. Nada mais premente do que provar aquele beijo. E assim foi. Ele não disse nada. Mas ela entendeu. Dançaram frente a frente, ele fechava um pouco o olho quando ria. Um voz forte no ouvido: “vamos ali?" Ela foi. E aquela noite esticou para um nascer do sol na praia da Paciência, um mingau no Mercado do Peixe, um banho de mar em Amaralina, um Sorvete na Ribeira, um cravinho no Pelô... Dormiram juntos todas as noites, devorando um ao outro num encaixe perfeito, uma química toda deles; o desejo não passava nunca, estavam sempre se tocando, não conseguiam se largar. Passearam no Solar do Unhão, no MAM, na Praça do Campo Grande...

Dançaram atrás de Bell, de Ivete, de Saulo, de Brown, de Armandinho...Nesses dias de festa e folia viraram um só; ela n vivia sem ele, ele não existia sem ela. Onde um acabava, começava o outro, iguais no bronzeado, no cheiro de mar, no beijo apimentado, nos passos de dança sincronizados. Um furacão e um vendaval de mãos dadas pelas ruas de Salvador. Ela não se lembrava de ser tão feliz na vida. E ele só queria capturar para sempre aquela alegria ímpar. E assim foi vivido aquele amor de cinco dias, mais forte do que cinco séculos, eterno em sua intensidade, mágico em sua duração. Mas... Tinha o dia de ir embora. E ele precisava dizer a ela. Chorava por dentro o coração, feito passarinho que não voa, de asa cortada. Chorava ela, mas fazia muita força prá não cair nenhuma lágrima, sorrindo com determinação no rosto sardento. Doía tudo a dor daquela despedida. O pior de saber que ele ia embora, era sentir que não voltava mais. Judiava muito. Maltratava. Machucava. Ela tinha vontade de correr até Itapuã, sem descanso, sem parar, arrebentando o pulmão, prá ver se assim vencia aquela tristeza.

Ele foi. Depois do último abraço, ela quis que seu coração entrasse no dele. Ele não deixou. Queria ela plena, inteira em cada pedaço. "Vai. A cada sorriso seu, dez meus. Linda. Linda. Eu vou saber. Eu sei tudo. Vaaaai." E foi, engolido pelo nunca mais. Ela abaixou os olhos, tremeu um pouco e finalmente, sem que ele visse, chorou um instante. Mas ela era forte, ela era dura e podia lidar com aquilo. Sentia-se grata ao universo por ter vivido sua vida inteira até aquele encontro. Nunca amou, nem amaria igual.

18:37. O sol já baixou e a lua, fininha, enfeita o céu. Ela levanta. Bate a areia da sandália. Ajeita a bolsa. Olha mais uma vez o mar. Sobe a ladeira da Barra. Não pensa em mais nada. Suspira e segue.

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Erica Sakaki, blogueira Contextual, vinhólatra, mãe, oficial de justiça, leitora compulsiva, apaixonada por gente, pela vida e pelas voltas que ela (sempre) dá.

#EricaSakaki

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