Das Dores


Deus divide as virtudes entre os seres com as mãos: enchem-nas com o que reserva de melhor e vai derramando sobre as criaturas. Sucede que, em fazendo dessa maneira, natural que uns recebam doses maiores que outros e, assim, constrói-se a natureza, tão divina em sua desigualdade. Foi assim com Maria das Dores. Ficou em um cantinho esquecido na nova leva dos que desceriam à Terra. Apenas respingaram-lhe gotas de tantas qualidades. Na vez da beleza, entretanto, escapou um grosso cordão pelo dedo mindinho da Santa Providência e atingiu-lhe em cheio.

Nasceu nos idos 70, em um lugar qualquer do sertão nordestino, entre tantas adversidades. Sua beleza cresceu sem nunca desabrochar. Não era como a rosa que desponta sobre os espinhos; era como a limalha de ouro que se incrusta no cascalho. Era preciso olho atento para reconhecê-la.

Os fluxos migratórios decorrentes da sazonalidade das secas empurravam os homens para as grandes cidades do Centro Sul. A fome castigava. As oportunidades nos pequenos vilarejos brotavam tanto quanto o milho no campo sem água. Ainda bem jovem, migrou para a capital para trabalhar em casa de família, como se dizia naquela época. O trabalho implicava dormir no emprego, em um quarto decorado com as sobras da casa dos patrões. E deveriam servir aos Senhores do que precisassem, qualquer serviço a qualquer hora. Se causa estranheza a um jovem interlocutor que alguém se submetesse a regime tão rigoroso, convém lembrar que se adere ao sistema antes de se refletir sobre suas injustiças. Era o que se tinha a oferecer.

Já Joana viveu aos tropeços com os avanços da inclusão da mulher: casou-se cedo, quando a mulher crescia para casar; teve quatro filhos em uma sociedade que não conhecia os contraceptivos. Depois o destino fez-lhe viúva. Foi quando surfou a nova onda. Encarou desafios e formou-se médica. Quando assumiu as rédeas de sua família, acumulando tarefas das mulheres e dos homens de então, foi uma mulher de fibra, mas já pôde se respaldar no pioneirismo de outras tantas. Seja como for, era uma ginástica para equilibrar tantas obrigações. E precisava trabalhar muito para prover sua família numerosa. Eram quatro filhos homens, o que fazia da ordem da casa um desafio. Não havia doméstica que durasse, ou que fizesse o serviço a contento. Joana já não sabia o que fazer. Foi quando Maria das Dores bateu em sua porta.

Maria conseguiu o emprego. Joana não acreditava que aquela pequena moça fosse dar jeito à situação. Mas não tinha escolha. Maria entregou-se ao labor. O dia começava difícil. Pela manhã, apenas Fernando, o terceiro dos filhos, ia à escola. O movimento da casa exigia muito. E ainda tinha o preparo do almoço. À tarde, contudo, Maria dividia a casa apenas com Fernando. Ela o achava bem bonito. Era alto e educado. Bem mais gentil que os homens de sua pequena cidade. Fernando soube ver os encantos de Maria. Percebeu sua cintura fina em contraste com seus quadris, o seu belo rosto emoldurado em cabelos sem trato. Apesar de bonita, Maria não tinha essa consciência de si mesma. Mas a presença de Fernando a despertou.

Trabalhava duro pela manhã para desfrutar algo da tarde. Certo dia, após o banho, Fernando vestiu-se apenas com um roupão verde. Procurava qualquer coisa na cozinha. Na verdade procurava Maria. Esbarraram-se algumas vezes. Maria ficava elétrica a cada toque. Pensava que aquela roupa lhe dava ares de Super Herói. Não se sabe como, mas houve uma hora em que o roupão se abriu e ambos encontraram o que tanto queriam. E assim foram muitas tardes.

Joana não acreditava no que estava acontecendo. A casa estava sempre impecável. A pequena, além de dar conta do serviço duro, parecia sempre contente com sua própria sorte. Como trabalha bem quem trabalha por amor! Mas era nas tardes que Maria recebia seu verdadeiro ordenado. Quando todos se iam, lá estava ele, de banho tomado, de roupão verde.... Viajava em seus braços como Lois Lane nos do Super Homem. Era como se aquela vestimenta lhe emprestasse poderes especiais. Era em cada dia um novo episódio, uma nova aventura, sempre com o mesmo final feliz. Os sonhos alimentavam a vida de Maria.

Tudo foi amor e paz até o dia em que a namorada de Fernando lhe veio visitar. Como sua presença incomodou Maria que logo pôs a vassoura atrás da porta! Mas a simpatia falhou. Fernando e sua namorada trancaram-se no quarto. Foram dores demais para a pequena Maria! Não resistiu. Inconformada, bateu na porta insistentemente. Quando esta se abriu, Fernando lançou-lhe seu olhar congelante e perguntou o que estava acontecendo. Não ousou responder. Caiu das nuvens em que costumava passear e tombou ao solo desfeita em lágrimas.

Quando Joana regressou de sua longa jornada, Maria, que era só dores, comunicou que não ficaria mais ali um dia sequer. Não deu maiores explicações, nem ouviu os apelos desesperados de Joana. Foi-se na manhã do dia seguinte. Bateu o portão, apanhou a pequena mala de seus poucos pertences e saiu pelas ruas em busca de um novo destino.

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Marcelo Bessa, Procurador Federal. Quando escrever é condensar em água cristalina o vapor das emoções vividas e blogueiro Contextual.

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