Fênix: sobre o ciclo da vida!

Há mortes que representam o fim de um ciclo de vida e o início de outro. É necessário um canto doce e suave, com tons de melancolia e tristeza, quando se aproxima o fim. Ela encontrou esse canto em si mesma...

...assim como a Fênix, quando sentiu que se aproximava o momento de retirar o seu coração do mundo e partir, preparou a sua pira funerária, mas ao invés de ramos de canela, sálvia e mirra, para realizar sua auto-combustão, colocou a dor de um amor não correspondido.

Dias antes, em momentos plenos de renúncia em prol do seu grande amor, ela vivia bem a sua vida junto a ele, imaginando que os dois eram um só!

Seria?

Ela acreditava que sim. Na sua plenitude, sentia-se: menina, mulher, fêmea, companheira. Deixava fluir toda a sua energia vital e sexual, no entanto não sabia que seu reinado absoluto ruiria. Não percebia fortes indícios de que ele renunciaria, porque ela acreditava plenamente no amor. Ruíra, e, por conseguinte, ela entoou seu canto e amargou a dor da morte que penetraria no seu mais profundo íntimo.

Ele sabia que não. Sabia do ciclo de vida longa da Fênix, feito de forma isolada. Não era forte o suficiente para viver isso e lutar pelo seu lugar ao sol. E, para além, havia nobres motivos que lhe fariam renunciar. Assim, não era apenas deixar de assistir o espetáculo da morte daquele pássaro mitológico e resignar-se a morrer e renascer juntos. Não poderia permanecer naquele reino, porque, desde o primeiro encontro, almejava a busca de um outro reino. A busca pelo reino perdido...

Assim, ela resignou-se. Entoou seu canto plangente. Os convidados vieram contemplar o espetáculo. Agitaram-se, entraram em êxtase e, logo depois, silenciaram. As suas penas eram brilhantes, douradas e vermelho-arroxeadas. Bateu as suas plumas e produziu as chamas que a consumiram. E quando a última centelha extinguiu-se, a pequena Fênix despertou do leito de cinzas. E assim, buscou a perpetuação, a ressurreição, a esperança pelo amor que nunca têm fim!

Colocou a mochila nas costas e sozinha, foi em busca do seu eixo; em busca do seu novo ser. O Olimpo movia-se, Deuses e Titãs, em especial Hélios, o deus sol, vibrava e torcia, pois sabia que ela o encontraria, porque ele (o novo ser) era ela, em sua mais sublime personificação. E, aliados, sopraram, através da natureza, das águas límpidas das cachoeiras e dos rios, das matas, da terra seca e molhada pela chuva, para que este ser, que estava e sempre esteve lá, dentro de si, ressurgisse e ela se reinventasse.

Sem perceber ou até mesmo se quisesse negar, não tinha mais como refutar, ela estava diferente. Estava refeita. Sabia lá no seu íntimo que, como a Fênix, possuía felicidade, virtude, força, inteligência e liberdade nata e, que nunca mais necessitaria de dois para formar um só.

Após tantas passagens pela terra, ela sabia que deveria continuar em sua busca incessante pelo amor, não se anulando ou deixando de brilhar, pois assim como o sol, já entendia que era necessário morrer todos os dias no horizonte para renascer no dia seguinte, perpetuando o eterno símbolo da morte e do renascimento da vida.

E agora ela estava preparada para o seu grande encontro com amor? Sim. Porque agora ela era só espírito. Era o principal. E ele, o seu complemento, já estava por vir. Rondando-a. Ele já se aproximaria. Seriam dois espíritos que decidiriam se encontrar...

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AnaCris Magalhães, blogueira Contextual, mãe, advogada, amante do Direito Penal, cantora e artista nos cantos da casa, apaixonada pela vida e, em busca da alegria e do amor que a vida pode ofertar.

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