Líbia 2 – uma vida numa mala


Morei entre março de 2010 e fevereiro de 2011 na Líbia, então governado há 45 anos pela sua real democracia de Muammar al-Gaddafi, por conta de um convite profissional.

Convivi com líbios e portugueses da equipe, além tunisianos, egípcios, sudaneses, italianos, malteses, espanhóis, portugueses, alemães, franceses, etc.

Era início de fevereiro, e já tinha estourado a Primavera Árabe na Tunísia e no Egito. Acompanhávamos tudo pela televisão internacional, pois as redes locais não transmitiam os acontecimentos, que se passou muito rápido e mais uma vez de maneira inesperada.

Parentes próximos já estavam cientes dos acontecimentos e aguardavam a minha chegada ao Brasil. Minha namorada na época já tinha acessado o Itamaraty dias antes da nossa fuga, que simplesmente a informou que o aeroporto estava aberto para vôos comercias, ou seja, fechavam os olhos como se tudo estivesse em plena tranquilidade. A resposta ao e-mail que ela também havia enviado ao embaixador reforçava a tranquilidade. Eu estava bem, inclusive neste mesmo dia tinha ido à residência da embaixada e o embaixador nos ofereceu a residência oficial para lá dormirmos, mas depois deste dia só voltaríamos a vê-lo no aeroporto no dia 24.

Durante o voo a sensação de alívio era única e logo que aterrissamos eu já falava com meus familiares e com minhas tias no Líbano que muito se preocuparam, pois na guerra civil do Líbano todos sabiam o que acontecia e o que provavelmente aconteceria... Eu tinha ciência que durante a guerra civil libanesa a vida corria de um jeito ou de outro, sempre havia uma estabilidade dentro do eterno ambiente de instabilidade, já na Líbia não se sabia o que esperar...entre as tribos, ninguém se entendia.

Mesmo com a confusão no aeroporto de Trípoli, para facilitar a retirada das nossas malas, segui o UEPS – último que entra primeiro que sai. Um dos responsáveis do aeroporto de Malta foi nos buscar na porta do avião, perguntou se alguém conhecia todas as malas dos que lá desceriam, eu logo me apresentei, pois tinha ficado de cão de guarda delas.

No bagageiro da aeronave procurei, procurei, e nada. Eram nove malas ao todo. Tive o cuidado de colocar um adesivo grande da empresa para melhor identificá-las, mas reconheceria todas independentemente disto. Nada...Os gajos me narraram a conversa com os funcionários do aeroporto na Líbia:

- Epa... estas malas vão descer em Malta?Malta? Malta...? (nem imagino em qual língua)

- Sim, Malta!

Pronto, matei a charada da confusão armada por aqueles simpáticos tripulantes portugueses. No mesmo momento em que fazíamos nosso conturbado e valente check-in, no guichê ao lado havia um voo da Air Malta. Ou seja, imaginando serem as nossas malas que desceriam em Malta, embarcaram um dos carrinhos da Air Malta.

E de volta ao saguão e para decepção de todos nós sem malas, recomendei ao diretor do aeroporto interferir e retirar as malas em que havia o identificador da Air Malta, um voo que ainda nem havia chegado ainda.

Após três semanas, um dia após eu ter chegado à nossa sede de Lisboa, acompanhei as duas vans carregadas com as malas encontradas, as minhas lá estavam, numa delas até peça duas arandelas de cerâmica estavam intactas... Fiquei surpreso! As malas do Ali não vieram que foi reembolsado posteriormente pelo seguro da companhia aérea. Mas muitas malas dos vietnamitas lá estavam e algumas vinham entreabertas, dei uma espiada então. O que levavam para casa? Sua vida...

Uma peça de roupa simples, um pequeno travesseiro, um fino cobertor... Aquilo mexe conosco. Temos tudo, levamos tudo de melhor nas nossas malas, e através do conteúdo das malas de nossos operários tentava tirar o aprendizado de tudo que tinha passado naqueles dias. Aqueles operários, que tinham como bem valioso um cobertor ou um travesseiro, eram quem fazia ser realidade um projeto de 1,5 bilhões de reais.

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Eduardo Chaalan Bitar, em breve voltará de sua temporada a trabalho na Argélia. Luta por um mundo corporativo menos cruel;entre os amigos no Brasil é conhecido como libanês, no Líbano é chamado de o brasileiro.

#EduardoChaalanBitar