A vida é filme (você entendeu?)

"Eu quero um colo, um berço

Um braço quente em torno ao meu pescoço

Uma voz que cante baixo

E pareça querer me fazer chorar.

Eu quero um calor no inverno

Um extravio morno da minha consciência

E depois, sem som,

Um sonho calmo

Um espaço enorme

Como a lua rodando entre as estrelas"

(Fernando Pessoa)

“The greatest thing you'll ever learn

Is just to love and be loved in return”

(Eden Ahbez)

Plano-sequência, em cinema, é aquele que registra a ação de uma sequência inteira, sem cortes. Há alguns memoráveis, como a cena final de “O passageiro - profissão: repórter”, de Michelangelo Antonioni, e “Arca russa”, de Aleksandr Sokurov, todo ele realizado em um único plano de 97 minutos.

A vida é um plano-sequência. Ora brevíssimo, ora centenário. Com tempos mortos e cenas épicas. Durante seu curso, há personagens que nós - atores que se sonham diretores dos próprios destinos - desejaríamos eliminar. A alguns outros, ressuscitar. A outros tantos, conceder o elixir da imortalidade.

A memória é uma ilha de edição - disse o poeta Waly Salomão. Recorta, refaz, reescreve. Libertina, inventa desejos. Ferida, amplifica as chagas, dramatiza, encena tragédias nos escaninhos da mente.

O que queremos nós, os atores? Dando um zoom, vemos que, à exceção dos psicopatas e seres estranhos de todo o gênero, todos os viventes buscam ser validados: seja pelo amor materno/paterno, seja pela projeção desse amor iniciático nas relações conjugais ou pelo manto protetor de um grande amigo. Queremos ser classificados acima dos demais na escala dos afetos de alguém. De alguns.

Este escriba sujeita-se a pedradas por basear-se em puro empirismo ao afirmar que a maioria esmagadora das pessoas não deseja dinheiro ou poder, em última análise. Quer só amor mesmo. As eventuais fissuras no processo de obtenção desse amor levam a uma superestimação compensatória do valor do poder, fama ou dinheiro na escala dos desejos. Ou então essas seriam meras “atividades-meio” para se conseguir o almejado amor - caminho inválido pois, nesse caso, os candidatos aprovados estariam em busca de qualquer coisa menos amor genuíno.

Essa é a espinha dorsal dramática dos roteiros da quase totalidade das vidas, o plot mais comum das histórias humanas: a infinita tensão contida no trinômio amor-validação-rejeição. Aquele cara poderoso que você conhece ergueu um império, mas o que queria, lá no fundo, era apenas o reconhecimento do pai. Aquela bonitona, que te olha do alto do seu Olimpo particular, tão aparentemente segura dentro do seu personagem, só deseja um laço verdadeiro com alguém. Construções tão frágeis, organismos indefesos à procura de águas serenas.

Parece redução, e é. São apenas as linhas gerais da coisa toda; é o argumento por excelência das nossas narrativas. O tempo dramático - a pulsação real da existência - tem infinitos matizes, e vai certamente muito além desses esboços.

E assim caminhamos, entre amores partidos, fins, reinícios, (des)encontros cinematográficos, perdas e tropeços, nesta comédia de erros na qual, quase sempre, por uma porta entra a felicidade e pela outra saímos nós, protagonistas tontos, para gozo, desespero ou delírio de um Deus que narra em off todos os nossos desenganos, angústias, alegrias, dramas.

Um Deus roteirista-enxadrista que move reis, bispos e torres até nos conduzir ao grande final, num longo travelling que encerrará nosso plano-sequência terrestre - e quem sabe, então, pode até nos carregar no colo, no sonhado instante redentor do extravio morno de nossas consciências.

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Jorge Santiago Junior é da área do Direito, prepara-se para ser professor, não sabe cozinhar mas gostaria muito, é fã de Paulinho da Viola e é, sobretudo, um filho de Gandhy legítimo (dos que saem dentro das cordas do bloco) e blogueiro Contextual.

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