Matar ou morrer


A vida é uma valsa. Você pode errar alguns passos, mas não pode comprometer a performance. Existe uma lógica para você se movimentar, por mais improvisada que seja, existe uma lógica até no improviso. E nessa dança você tende a cansar e a evoluir também.

A cada tempo que passa, seus movimentos vão ficando mais precisos, pela prática que se adquire, e mais cansados também. É o que acontece quando ficamos mais velhos e mais exigentes. Sabemos pisar melhor, nos esforçamos menos para fazer a mesma coisa que fazíamos antes, ficamos mais seletivos e com o gosto mais apurado.

Com o passar da dança, não aceitamos qualquer coisa, não queremos mais mágoas, medimos mais nossos movimentos e ficamos mais cautelosos.

O grande problema é quando a cautela nos limita tanto que começamos a perder a capacidade de sermos felizes. Perdemos a pureza e o vigor da criança e nos entregamos a uma falsa segurança em troca de acreditarmos que estamos minimizando os riscos.

Aí a cautela se transforma no dragão, que é o medo tomando conta da vitalidade. É o seu ego que para algumas coisas (ou para tudo) começa a te bloquear.

Na mitologia os medos podem ser associados ao dragão, pelo menos para nós ocidentais. É uma simbologia. É o dragão que te limita e que te impede de enxergar aquilo que é claro para outras pessoas.

Mate o dragão.

Matar o dragão é justamente encontrar o seu sentido de viver. Pode ser um sonho pequeno, pode ser um sonho grande, mas é algo seu, irrenunciável. E não adianta fugir. Ele - o seu sentido - sempre será um chamado para você, bloqueado ou não pelo dragão.

O dragão te guarda do mundo mas não proporciona alegrias, pois ele próprio simboliza a antítese da felicidade. E apesar de te proteger, ele não se relaciona com você. A relação do dragão é com o mundo externo, do qual ele quer te manter afastado. E nesse mundo estão as pessoas, as pequenas e grandes alegrias e o combustível para seguir em frente.

Matar o dragão é devolver a si próprio a vitalidade. E não há nada mais necessário do que a vitalidade como passo imediato para a felicidade.

Não livrar-se do dragão pode significar a perda da própria vida, e pior, pode significar morrer estando vivo.

Nunca é tarde para acordar. Mate o dragão. É matar ou morrer.

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Rômulo Lunelli, desfragmentador de pensamentos e devaneios, procurador federal, compositor e músico por paixão e blogueiro Contextual.

#RômuloLunelli

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