Por Que a Gente é Assim?


Luzes e sons giram sem calar. Braços e abraços se chocam sem parar. Bocas aos bocados se tocam sem chocar. Vozes e risos gritam pelo ar. O garçom encosta ao lado e faz a gente conversar:

- Mais uma dose?

- É claro que eu estou a fim.

- A noite nunca tem fim!

- Por que que a gente é assim?

Não conseguia distinguir a música que estava tocando. Mal conseguia ouvir algo com clareza. Tudo muito alto e aquele zunido na minha cabeça. Estávamos na casa de Billy Negão. Comemorando não sei o que. Sempre havia algo a festejar. Todas as noites. Em qualquer lugar. Qualquer motivo era desculpa para singrar a cidade, sangrar as veias, sentir o vento, sorver o pó, sorrir a alma, bater palma, beber, tragar, cuspir e acordar em alguma cama estreita com alguma dama estranha ao lado.

Antes que o garçom saísse de perto, puxei-o pelo braço, arranquei-lhe a bandeja, engoli uma bala, cheirei uma carreira e deitei no chão. Agora tudo era silêncio. Minha cabeça pendeu para o lado esquerdo. Bebel e Dedé se agarravam como se estivessem sozinhos e mergulhados em um mar de arcos e de íris, de rains and bows. Olhei para o teto. Uma saia sem calcinha passou por minhas vistas. Me animei. Mas na sequência, outra saia sem calcinha passou de mãos dadas com a primeira. Minha cabeça pendeu para o lado direito. Sozinha, encostada na parede, de bota, minissaia e corpete, cabelo incandescente cobrindo o rosto inerte. Bete estava linda. Como nunca percebera antes. Meu pau subia. E eu só queria buscar na memória um verso de Neruda, uma anedota de Bocage, uma história de Cervantes. Mas nada vinha. Só meu pau crescia.

Vivíamos sem nenhuma responsabilidade. Até a última gota, ponta, língua, carne. Mais gramas sem dramas sempre até mais tarde. A gente não acreditava no amanhã. Sabia que sobreviver a mais uma noite era uma missão impossível, sem apelo, razão ou sentido. Queríamos atingir os limites da vida. Só para ver a cara da morte. E ter certeza que ela estava viva. E a cada festa, balada, escapada, fugida, descobríamos que não havia saída. A vida se impunha. Oferecida. E ao nascer de cada novo dia, olhava na nossa cara e ria.

O som voltou aos meus ouvidos. Mas eu ainda não o entendia. Gritava, enquanto levantava me equilibrando entre copos e corpos e colunas e luzes de cores exageradas, piscando em curtas temporadas, deixando as pessoas quase paradas. Peguei duas cervejas belgas que deveriam estar em taças. Ofereci uma a Bete enquanto achava que disfarçava a minha tara. Ela me disse que não estava com sede. Eu disse que minha boca estava seca. Ela deu um passo à frente. Agarrou minha nuca, sedenta. E me beijou com a língua quente, ardente e trêmula.

Cravei minhas garras em sua bunda. Grudei cinturas. Abri a mandíbula buscando ar. Até voltar a mergulhar em nossas bocas loucas, lancinantes, mudas. Ela me empurrou. Subiu a escada da casa que levava ao mezanino. E sorrindo fez biquinho. Sumindo de fininho. Subi veloz. Sorri demais. Sumi atrás. Me arrastei até o banheiro. Rastejei por azulejos. Alcancei pele e perna e pelo. Ela calou minha boca com um beijo pouco antes de quebrar o silêncio:

- Você tem exatamente três mil horas pra parar de me beijar.

Respondi com outro beijo, um amasso, um suspiro, um sorriso e uma frase de efeito:

- Hum, meu bem, você tem tudo pra me conquistar.

Ancas na pia. Pulsos no espelho. Mão no pescoço. Mostro minhas presas. Trança-perna. Encaixe perfeito. Rasgo o corpete. Lambo-lhe os peitos. Eu a insultava, ela me cuspia. Ela gritava, eu investia. Eu surrava, ela batia. Ela arfava, eu sacodia. Eu abraçava, ela encolhia. Ela acreditava, eu mentia. Eu enfiava, ela consentia. Ela chorava, eu sofria. Eu gozava, ela gemia. Ela gargalhava, eu ria. Eu a mastigava, ela me engolia. Enquanto dizia:

- Você tem exatamente um segundo pra aprender a me amar.

E eu excitado respondia:

- Você tem a vida inteira, baby, pra me devorar!

E me devorou. Em todas as poses. De todos os jeitos. Na porta, no chão, na privada. Entre pernas, mãos, caras. Violento e sereno. Rápido e lento. Gritado e sofrido. Suado e gemido. Até explodir em êxtase. Cambalear e cair tonto pelas paredes.

Acordei algumas horas depois. Ouvindo baixinho Codinome Beija-Flor no celular dela, que se mostrava jogado no ralo do canto do banheiro. Ainda bêbado, me levanto para tentar acordá-la. Ainda trôpego, caio em cima de suas pernas. A língua seca. A mão treme. O olho vira e eu fico embaralhado com o que vejo. Uma poça de sangue que sai da boca de Bete me mostra que a morte sorriu pra ela. Uma vida encontrou o fim. Fui embora me perguntando por que a gente é assim.

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Mário Garcia Jr. é blogueiro Contextual, publicitário, metido a cozinheiro, joga bola de teimoso, mas gosta mesmo é de escrever.

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