Visagem


Eram 18hs do último dia da nossa estada em Mucugê. Escureceu cedo e a temperatura caiu rápido. A turma da casa tinha feito um churrasco. Exagero de risadas, comida, bebida e música. Naquele final de tarde, bateu aquela sensação de todo fim de feriado. A expectativa pela volta à realidade. Meio cansaço. Meio tristeza. Meio preguiça. Todo mundo se olhava. Mas não falava nada. Marcelo sempre dedilhando o violão, começou a tocar uma música triste. Parecia um lamento sertanejo, algo regional, cutucava direto no coração da gente. Até doía. Naquele transe, ele não olhava ninguém, imerso no seu planeta. Apenas levemente consciente de tudo, da presença de Renata, seu amor, sua menina, ali do lado. Os amigos em volta. Todo mundo sereno. Despreocupados, sabiam que podiam saborear as próprias companhias. Ali, ninguém ia se cobrar nada. Nada de pedidos, solicitações, demandas, porque o momento era perfeito e tudo estava pleno, fluindo com harmonia.

Não sei, se por conta da melodia, do frio ou da noite caindo rapidamente, mas, num piscar de olhos e uma girada de cabeça, ela se materializou no portão.

Pequena. Curvada. Frágil. Vestes simples. Uma blusa desbotada. Uma saia florida. Ela sorriu e falou com sua voz baixa, doce, mas firme:

"Posso entrar? Eu vim cantar prá vocês..."

Desci do semi-sonho, apertei o olhar. Num meio sorriso, Elber assentiu com a cabeça, como se já conhecesse de há muito a respeitável anciã. Apertou a mão de Nara. Ela também sorriu de leve.

Eu me levantei e fui ao seu encontro.

Os demais apenas observavam curiosos.

"Senta aqui, minha tia", Sakaki falou. Ricardo puxou uma cadeira, Adriana abriu espaço.

Ela, com passinhos miúdos, na sua fortaleza de cristal, não se fez de rogada. Sentou nobremente, empertigando ao máximo, as costas estropiadas.

Breve instante de silêncio.

Quando levantou o olhar, reparei como era bonita. O algodão em volta da cabeça cuidadosamente alinhado, a tez serena, pele enrugada, mas o olhar de fogo. Postura de rainha, com as mãos nodosas, cheias de veias, cruzadas à frente do tronco.

Não pediu, asseverou:

" Eu vou cantar..."

E assim o fez, com voz cálida, suave, almiscarada. Enfeitou o ambiente e encantou nossos ouvidos durante uma hora. Fez-se uma harmonia perfeita entre o músico e maestrina. Encaixe indescritível. Ninguém tinha coragem de se mexer na cadeira e quebrar aquela atmosfera mágica. Eu não queria pensar em nada. Olhava em volta, mas não queria enxergar. Não queria explicar. Não queria definir. É assim a energia da Chapada, com suas rochas e o magnetismo que delas emana. Encanta a gente e nos sequestra para viagens intermináveis a mundos desconhecidos, dentro e fora de nós mesmos. Não pode haver medo. De saltar, escalar, nem mergulhar; eis a magia e o mistério que só se encontra naquelas paragens.

Quando, finalmente, deu-se ela por satisfeita, explicou:

"Moço bonito que toca violão, parece meu marido, José Carlos. Ele já morreu faz 30 anos. Era sanfoneiro. Alegre, gostava de festa. Vivia de música e aleivosia. Dinheiro, não tinha. Comida, não me dava. Mas deitava todas as noites no nosso colchão de palha e me cobria de amor. Seu moço, eu seguia ele por todo canto, como se estivesse "rezada"... Não queria saber de outra coisa. Depois que ele foi embora para a Terra do Nunca Mais, eu não procurei outro companheiro. Porque jamais vai existir, debaixo desse Céu e em cima dessa Terra, alguém como ele. Fui feliz, seu moço. Todos vocês aqui, meninos, não se enganem. Procurem para a vida de vocês esse tipo de amor. Só se acha uma vez na vida. É a única coisa que importa. O resto todo passa, o tempo conserta, o tempo ajeita. Não vale o esforço, tristeza ou preocupação..."

Nada mais disse . Levantou. Alisou com cuidado a saia, ajeitou a blusa surrada. Abriu o portão de grade azul e mergulhou na escuridão da noite, agora silenciosa, na direção do infinito...

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Erica Sakaki, blogueira Contextual, vinhólatra, mãe, oficial de justiça, leitora compulsiva, apaixonada por gente, pela vida e pelas voltas que ela (sempre) dá.

#EricaSakaki