Aqueles olhos azuis...


Havia isolado-me da matilha e, por conta disso, estava amoada naqueles dias. Buscava tratar a ferida profunda de minha alma e precisava estar só para me recuperar. É muito raro encontrar uma loba solitária, pois os lobos costumam viver em comunidade. Eu Estava só. Tinha decidido ficar só por alguns dias naquela pequena cidade do interior.

Adorava feiras, afinal, lembrava a socialização das alcateias. Descobri que a feira local ocorria aos domingos pela manhã. Acordei cedo e sai passeando pela vila, até chegar ao centro, onde a mesma ocorria. Ao longo do percurso, pequenas casas misturavam-se ao comércio, pontos de moto-taxi, igreja, bares, lojas, tudo reunido num só contexto, junto com nativos e turistas.

Uma pequena loja com roupas do Chile, Peru, Tailândia..., chamou-me a atenção com a placa: “Massagem Ayurvédica e Marmaterapia”. Queria saber mais sobre aquelas massagens que desconhecia, afinal de contas, através do corpo, buscamos tratar a alma, posto que, os dois formam um só.

Adentrei a porta como uma loba, feroz, agitada, uivando, pois quando sós, nós lobos tendemos a nos proteger até do perigo inimaginável. Lá estava ele: sentado; quieto; manso; cabeça baixa. E abordei-o, tirando da sua introspecção. A minha voz estrondou como um trovão! Ergueu-se. Olhou-me serenamente, olhou-me com aqueles olhos azuis: azul turquesa, azul da cor do mar!

Estagnei! Disse-lhe tão somente: “seus olhos são lindos”!

Ele sorriu. Aquele sorriso leve, no canto da boca. Com as palmas das mãos juntas, o seu Deus saldou o meu (Namastê), e entoou a voz como um mantra sagrado para me responder: “muito grato”. E, para além do jeito manso de falar, aquele sotaque, “portunhol”, uma mistura de português com espanhol, deixou-me curiosa, “de onde ele veio?” Vim do Chile - ele respondeu.

Na minha cabeça, só recordei que os chilenos, de um modo geral, são agradáveis, calmos e receptivos, mas naquele momento ele representava um pouco mais. Era difícil descrevê-lo, por sua natureza, força, beleza; era algo indizível, indescritível, que causava imenso prazer. Era inebriante, encantador, ou, simplesmente, como dizem os chilenos numa única palavra, inefable.

Encantada, mais ainda exaltada pela minha própria natureza, bombardeava-o com inúmeras perguntas sobre massagens, saída da terra natal, motivos que o prendiam ali e até sobre Deus. E ele, sempre muito sereno, olhando-me nos olhos, com aqueles olhos azuis, respondia tudo lentamente e, de quebra, sempre com aquele leve sorriso no canto da boca...

Comecei a experimentar algumas sensações estranhas. Senti vergonha pela minha agitação. Ao mesmo tempo, sentia-me enfeitiçada por aqueles olhos azuis. Eles convidavam-me. Senti vontade de neles mergulhar.

Não mergulhei! Fui embora, mas voltei à noite para a massagem.

Naquela sala, ao som de mantras indianos e a luz de vela, deitada semi-nua, com tecidos finos espalhados por todo o corpo, estava vulnerável, mas, ao mesmo tempo resguardada por ele. Senti a temperatura agradável do óleo quente pingando sobre mim, o cheiro inebriante dos óleos de canela, lavandim, gergelim, amêndoa e, o toque macio das suas mãos...

Aliando o seu toque à Ayurvédica Abhyanga, ungiu meu corpo com óleo, despertou o equilíbrio e a dinâmica da minha mente e corpo; com a Marma, massageou os pontos energéticos espalhados pelo meu corpo, deixando fluir o prana (energia vital); as ligações dos meus Chakras. Senti muita dor. Uma dor intensa no corpo e na alma, porque o meu coração estava ferido. E ele dizia que tudo era o reflexo dos meus pensamentos, das minhas escolhas, do que eu fazia com minha vida. Chorei, sorri, dormi... Despertei ao ouvir a melodia da sua voz: “estamos prontos”.

E, já recomposta fisicamente, mas com a alma recolhida, aquecendo-me com chá de maracujá, percebi que seus olhos mudaram de cor. Agora eram verdes. De dia, com os reflexos do sol, eram azuis turquesa, mas com a escuridão da noite, sob reflexo apenas da lua, eram verdes. E mais uma vez, seus olhos refletiam todos os mistérios do mar.

Agora não mais como loba e sim como uma menina-mulher, confessei-lhe o que havia vivenciado pela manhã. Deixei claro que o meu interesse não era sexual, mas apenas espiritual. Na sua amenidade explicou que não foram os seus olhos que me encantaram, mas o meu reflexo que foi visto neles. “Era você!” - disse-me. Eu só era o condutor do seu encontro consigo, completou.. “Deveria ter mergulhado!”

E assim o fiz...

Nos dias seguintes, naquele lugar, percebi que eu era parte de um todo nesse grande universo. E assim, permiti-me mergulhar em mim!

Após despretensiosos passeios pela vila, fiz amigos interessantes. Por entre bares, restaurantes, lojas, pousadas, ruas e, com prosas casuais, eles proporcionavam-me a grandiosidade das suas particularidades: amor, crenças, valores, família, terra natal, religião e, bebendo da fonte de conhecimento de origem brasileira e estrangeira, conheci um pouco mais sobre a natureza humana e seus mistérios...

... e cercada pela magia daquele povo e lugar, descobri a magnitude do Vale do Capão!

Percorri algumas trilhas e contemplei o espetáculo que a natureza me propiciava. No caminho para Cachoeiras: da Fumaça, Águas Claras, Riachinho, Rio Negro, entre outras, muitas vezes, ficava em silêncio, observando-me, conhecendo-me.

Banhei-me em águas geladas; meditei ao som de queda d’água das cachoeiras. Raios solares abraçavam e conduziam a minha alma como numa valsa, ativando meu princípio vital. Devo confessar que tudo isso só foi possível a partir dos seus olhos, quando pude mergulhar em mim. Pude descobrir-me, tal como sou, que faço parte de tudo que está ordenado harmonicamente no universo.

Aqueles olhos azuis refletiram que sou como o mar: capaz de driblar qualquer obstáculo, mesmo conhecendo o medo e as dificuldades. Sou volúpia - calmaria; transparência - escuridade. Fria - quente. E, com minha força, posso transformar um verdadeiro caos em questão de minutos ou abranda-lo. Crio e destruo. Quando necessário, sei modificar-me, através do curso das águas. Posso transformar e devorar. Sou imensidão, plenitude; paz e puro amor...

Sou tão inebriante quanto aqueles olhos azuis!

-

AnaCris Magalhães, blogueira Contextual, mãe, advogada, amante do Direito Penal, cantora e artista nos cantos da casa, apaixonada pela vida e, em busca da alegria e do amor que a vida pode ofertar.

#AnaCrisMagalhães

* Este é um espaço de diálogos e discussões e não serão aceitos comentários desrespeitosos e ofensivos, em qualquer aspecto.*