A espera

Era a décima vez que Cristina olhava o mostrador de seu relógio predileto. Ela adorava relógios. Este já era a prova de água. Não que relógio seja para se molhar, pensava, mas é muito útil para proteger da chuva, ou de pequenos acidentes. Mas agora já não se deleitava com o colorido da pulseira, nem com o desenho de seus detalhes. Incomodava a lentidão dos ponteiros. A cada novo ônibus que chegava, Cristina se levantava, esticava o pescoço o quanto podia para ver o letreiro da cidade de origem. Depois voltava, parava um pouco e se sentava novamente. Observava a gente que descia amarrotada das grandes viagens. Então eram as malas, abraços de boas vindas para alguns; para outros, a perplexidade do novo que se revela diante dos olhos. Imaginava como estaria Cristiane.

Cristina e Cristiane dividiram a adolescência. Iam juntas à praia, às festas. Partilhavam as descobertas, as experiências alegres e tristes. Fizeram-se amigas, verdadeiramente amigas. Escolheram-se irmãs, por assim dizer. E assim foi até que o destino levou Cristiane a uma cidade distante e já contavam dois anos que não se viam. Estamos aqui no tempo das cartas manuscritas, enviadas nos correios e aguardadas com apreensão. A tecnologia deu agilidade a muita coisa. Acontece que o amor, que é coisa que dá dentro da gente, precisa de tempo para construir-se. Era no intervalo das correspondências que a saudade tinha seu lugar, que eram revividas as melhores lembranças. Era assim que os laços se fortaleciam, mesmo na distância.

Acontece que também ali se deitava a sombra da incerteza. Era o que fazia Cristina consultar o seu relógio já pela vigésima vez. E se as saudades tivessem acabado para Cristiane? E se os novos ares lhe tivessem mudado os gostos? E se não fossem mais amigas? Estava a ponto de pôr um ovo, como diria com seu jeito estouvado. E quando leu que era o ônibus de Cristiane que acabara de chegar, o coração saltou-lhe à boca. E já estava ali, ao pé da porta, trêmula, com os olhos fixos em quem descia. Foi longa a espera. Não na escala padrão do tempo, mas na intensidade do que vivia.

Quando chegou à porta, Cristiane já tinha visto a amiga através das janelas escuras. Adivinhou-lhe a aflição. Talvez também estivesse aflita. Sorriu-lhe do topo da escada. O sangue voltou a correr nas veias de Cristina aquecendo-lhe inteira. Cristiane abriu-lhe os braços em redenção e acolhimento. Foi um longo abraço. Sim, ainda era a sua amiga, pensou. E tomou-lhe uma profunda felicidade.

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Marcelo Bessa, Procurador Federal. Quando escrever é condensar em água cristalina o vapor das emoções vividas e blogueiro Contextual.

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