(Desa)sossego

Deitada na rede da varanda espia as estrelas. Céu preto, mas coalhado de pontos luminosos. Estrelas. Duas horas da manhã. Que dia é hoje? Terça-feira. Amanhã tem que estar de pé seis e trinta, prova da faculdade. Mas a cabeça gira e não quer parar. Acende outro Marlboro. Ouve a música da playlist: "só enquanto eu respirar, eu vou lembrar de você..." Novamente. Pela milésima vez, a pergunta: como foi acontecer?

Vira de lado, sente a brisa. De longe, o mar bate na pedra. Apura o ouvido para escutar: a música o mar o coração. A cabeça não para. Martelam as idéias: como eu fui deixar tudo isso rolar?

Já tem quase um ano e ela não sabe explicar. Simplesmente porque a vida anda toda certa, no trilho. Namorado, confere. Amigos, confere. Saúde, confere. Estudos, confere. Tudo no lugar, perfeito, incólume. Afortunada é a palavra. Aí um dia, do nada, ela. Ela. Aquela que sempre foi mais do que amiga. Confidente. Cúmplice nas bebedeiras. Ela que entendia suas TPMs, com quem falava de arte, poesia, filosofia. Dissecavam-se as almas, reciprocamente. Com ela dividia um chocolate, um whisky, um baseado; às vezes até um namorado. Era para quem revelava seus medos, suas dúvidas e faltas. De férias, na beira da praia. Um toque. Pancada de arrepio. O olhar de estranheza. Um choque. Susto e sedução. Suspiro. Desconforto confortável. Mas, essas coisas não se explicam, e, também não se controlam. Medo. Veio um beijo furtivo e (in)tenso. Preciso. Dentes e língua. Peitos e lábios, junto com Caetano. Quase sem querer. Quase com dor. E daí, um mundo inteiro se abriu dentro dela. Desconhecido. Extraordinário.

2:36. Coração descompassado. Já trocaram músicas, promessas e poesias. E muitos combinados. O maior deles: a consciência sobre a vida real e de que nada pode alterá-la. Há que ser leve, se prometeram. Mas ela não sabe lidar com isso. Coração em desassossego. Ela quer tudo, toda hora e por completo. Nada de dividir, regular, limitar. Não quer barreira, convenção, nem regra. Mas não vai abrir mão do seu mundo real. E tudo gira, descompassado. Ela pensa e repensa, corre pelo labirinto, mas não encontra saída; simplesmente porque não há.

Ela quer esse amor do dia a dia, todo dia, em cada conversa e segredo trocado. Difícil abrir mão desse mundo paralelo que se inventou. Precisa dele para se sentir ela mesma. Precisa disso para seguir em frente.

A lua se escondeu. Novamente se remexe e agora a brisa é vento. Umas nuvens cobrem as estrelas. Parece que vai chover. Ela não quer levantar, mas, precisa. Inspira. Respira. Suspira.

Última olhada no celular antes de subir as escadas:

"De todas as maneiras Que há de amar Nós já nos amamos ... Agora já passa da hora Tá lindo lá fora Larga a minha mão Solta as unhas do meu coração Que ele está apressado E desanda a bater desvairado Quando entra o verão..."

Saída não há. Conclui.

O que fazer?

Nada,

apenas viver.

---

Erica Sakaki, blogueira Contextual, vinhólatra, mãe, oficial de justiça, leitora compulsiva, apaixonada por gente, pela vida e pelas voltas que ela (sempre) dá.

#EricaSakaki

* Este é um espaço de diálogos e discussões e não serão aceitos comentários desrespeitosos e ofensivos, em qualquer aspecto.*