Essa tal velocidade


“Estamos voando baixo”. Essa é a expressão que mais me remete ao nosso tempo. A velocidade com que tudo nos acontece leva mais rápido a acessos, lugares, pessoas e informações. Ao mesmo tempo, deixa-nos frustrados com algumas esferas da sociedade que não acompanham o ritmo veloz das transformações e insistem em ideias conservadoras, conceitos retrógrados e processos burocráticos, no contraponto do veloz avanço da tecnologia. Além disso, tal avanço não nos permite a conexão da atenção com a observação, e o objetivo final, que é a reflexão, fica inatingível, fazendo-nos esquecer de uma preciosa e quase extinta qualidade: a paciência!

Hoje, alguns segundos de espera se transformam em transtorno, seja diante de um arquivo que não abre imediatamente, de uma resposta que não chega via aplicativos sociais ou de um telefonema que não é atendido assim que fazemos a primeira ligação, entre outros exemplos. As leituras têm que ser rápidas. Portanto, os textos curtos, vídeos e fotografias têm muito mais likes e as mensagens que trocamos são escritas com palavras abreviadas, transformando nossa usual linguagem em um novo dialeto, o que vale principalmente para as gerações mais novas – gerações estas que vêm modificando o significado do tempo. Os jovens tornaram-se seres impacientes, sem tolerância à frustração e bem próximos de modernas máquinas “faz tudo”.

Não podemos evitar essa transformação que tanto buscamos, principalmente quando falamos de velocidade. Mesmo com tantos mecanismos acelerando nossos passos, ainda nos deparamos com a lentidão em diversos aspectos. Os exemplos são evidentes para aqueles que ainda trafegam nas esferas públicas e se se veem diante de inúmeros contextos que permanecem inalterados: a cena do crime já está decifrada, devidamente esclarecida, mas ainda assim é bastante lenta sua real solução. Nesse caso, o sentimento é de impunidade, de falta de justiça e de desânimo, mas tem muita gente lutando contra estas “MOROsidades”. Que bom!

Nessa máquina do tempo, somos transportados diariamente para o futuro, onde a tecnologia nos torna senhores dos movimentos, das rápidas transformações. Mas, quando apertamos o botão da justiça, da saúde, da educação, da política e dos valores morais, somos arremessados para o passado, onde estamos presos a antigas teorias, ao complexo e lento senhor de todos os tempos: o Poder. Esse senhor carrega antigos processos e vaidades que nos levam ao sentimento de paralisação em todos os sentidos – ou seja, na marcha lenta da evolução – e nos obrigam veementemente a revisitar aquela quase esquecida qualidade de paciência!

Essa dicotomia de evoluções e involuções está deixando a sociedade confusa e cada vez mais doente, machucada pela ansiedade e maltratada pelo sentimento de impunidade em relação às cenas tristes com que nos deparamos diariamente – cada vez mais evidentes com a crescente velocidade da informação. Que triste desencontro entre a evolução tecnológica que nos garante uma rapidez intensa nas nossas relações, ações e pensamentos e a exacerbada lentidão provocada pela falta de interesse e de atitude política, marcada por um poder individualista e autocrático disfarçado de democracia.

-----

Asttor Cirne é administrador, observador assíduo do cotidiano, amante da música, leitura e literatura, atento a tudo e a todos e blogueiro Contextual.

#AsttorCirne