Um homem na calçada


Ouço pessoas vindo. Elas parecem nervosas. Talvez discutindo sobre problemas. Estão chegando... Opa, rapaz, olhe por onde anda, por favor, não pise em mim!

Ufa! Levei tanto tempo para quebrar esse concreto e ainda bem que ele não me pisou. Eita, ele está voltando, será que se arrependeu e vai enfim me pisar? Me arrancar?

Não. Mas ele está olhando detido para mim. Que sensação estranha! Me sinto quase um ET. O que poderia haver de tão interessante numa flor que nasceu num chão horrível de cimento frio? Ele me olha e sorri. Algo deve fazer sentido para ele.

Não me lembro ao certo quantos anos demorei para vencer este chão duro, nem os motivos que me levaram tentar. Mas segui o meu desígnio. Algo me dizia que eu tinha que encontrar o Sol. Desejava que ele beijasse minha pétala vermelha e me nutrisse.

Quando eu era somente uma semente, sonhava sobre o futuro. Esperava meses por cada outono com a umidade da chuva entrando pelas microfrestas do cimento ali. Depois, minhas pequenas raízes apareceram e começaram a tentar fazer o que antes parecia impossível.

Mas não desisti. Permaneci firme quanto ao meu grande sonho. Eu sabia que tinha que seguir em frente. Tinha que me prender forte ao solo para começar a fazer praticamente um milagre. Se quebrasse aquele piso e ganharia o mundo!

Sempre pensei que todos temos um propósito na vida. O meu era germinar, me agarrar ao solo com firmeza e superar o concreto para emergir com toda a força e beleza que eu pudesse mostrar ao mundo. Sim, meu objetivo final de vida era ser bela e, quem sabe, despertar algo de bom nas pessoas.

Uma flor é assim. Ela não é fútil só por desejar ser bela. A beleza das flores tem o poder de transportar as pessoas para um refúgio seguro de afeto. Por isso que quando uma pessoa oferece flores a outra, ela na verdade está dando o que há de melhor em si. Com aquele gesto, praticamente entrega sua alma e o seu coração a quem se quer bem.

Dar flores pode simbolizar um pedido de desculpas, uma declaração de amor ou mesmo uma mensagem de alento.

Quando eu era só uma semente, me pegava pensando no que seria de mim no futuro. Se ao final de minha jornada eu iria compor um arranjo de dia dos namorados, o buquê de um amigo que pede desculpas a uma amiga para restaurar uma amizade que estava se perdendo ou mesmo se iria parar numa coroa de flores para acalentar uma família que perdeu um ente querido.

Estava aqui nesse chão duro lutando por minha missão e observando o que estava a minha volta. Só eu sei o que passei para chegar até aqui. E só consegui porque aproveitei ao máximo cada nutriente que cruzou meu caminho, cada qual me aconselhando e que dando força quando eu pensava em desistir. Lembro com carinho de cada punhadinho de terra que me abraçou com força quando eu precisei. Eu sou soma de tudo de bom que todos esses amigos me ofereceram.

O rapaz ainda me olha, mas agora sorri. Não sei o nome dele. Parece ser um amigo, uma pessoa do bem. É estranho... mas o stress se foi e parece haver carinho no olhar.

Envergonhada, respondo com um sorriso. Algo em mim talvez tenha feito sentido para ele. Quem sabe meus tons vermelhos, minha história ou talvez meu discreto perfume...

Agora vejo que ele pegou o celular e começou a escrever algo ali. Talvez ele seja um escritor e escreva algo sobre o que viu em mim. Seria legal se algo em mim pudesse fazer sentido para ele ou para mais pessoas. Eu teria assim cumprido meus propósitos sem sequer ter saído dali? Agora estou é curiosa...

Todos esses anos até emergir e vencer com beleza esse concreto, e eu agora cara a cara com esse jovem. Se fosse para desejar algo, eu quanto ao que ele escreve, desejaria que ele soubesse algo quanto ao que percorri e convencesse as pessoas de que a vida pode ser mais bela se olharmos para ela sob o prisma de uma flor.

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Rômulo Lunelli, desfragmentador de pensamentos e devaneios, procurador federal, compositor e músico por paixão e blogueiro Contextual.

#RômuloLunelli

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