Uma pétala na calçada


A hora já estava avançada. Era muito além do meio-dia quando cruzamos o portão discutindo sobre possíveis soluções técnicas para um sério problema em um de nossos principais clientes. Àquela altura o calor e a fome só não eram maiores que nossa preocupação quanto aos rumos dos negócios em meio ao que parecia ser a mais grave crise no país nos últimos anos.

Logo após cruzarmos o portão me chamou a atenção um pequeno ponto vermelho em meio a uma fissura no concreto bem rente aos meus pés... Ao olhar com atenção, a constatação: uma pequena flor de pétala única. Tratava-se de algo quase minúsculo e que ainda assim se insurgira contra a dureza do piso, perseverando ao ponto de desabrochar ali. Incrível! Algo tão pequeno, frágil e, quiçá, inofensivo, rompera uma superfície que eu sequer faria tremer com um soco... A vida sob o piso bruto e cinzento ali havia triunfado!

Aquela pequena pétala vermelha gradualmente conseguiu me transportar do calor de uma discussão de negócios para muito longe dali, e por um lapso de tempo me fizera refletir: o quanto do que eu realmente era, o quanto de minha luz interior conseguia realmente romper aquela minha casca corporativa e chegava às pessoas ao meu redor? Será que eu estava "encoberto por cimento" ou conseguia fazer alguma diferença para as pessoas meu redor? Se tudo passa, será que eu estava aproveitando o tempo com os que estavam em meu entorno enquanto os tinha por perto?

Romper o concreto para aquela pequena planta não teria sido tarefa exatamente fácil, e tampouco algo súbito. Ao invés, deu-se ali um processo gradual, como a partir de quando decidimos descer de nossos pedestais e admitimos nossa humanidade, reconhecendo nossos vários excessos e fracassos. E talvez sejam exatamente nesses momentos de desbalanço, quando nos expomos de fato, que nos seja gradualmente removida a espessa e dura camada de concreto que nos afasta de florescer. Se rompermos parte de nossa casca, é bastante provável que nos surpreendamos com o surgimento de algo genuíno e de coloração tão intensa como aquilo que irrompera o concreto para me cativar e tomar o coração.

Muitas vezes nós nos doamos por nossos objetivos, almejando mais e mais coisas e ficamos tão envolvidos por nosso acalorado dia-a-dia que ignoramos os vários pequenos presentes de Deus ao nosso redor. Nós nos deixamos levar seja por nossas ambições e sonhos materialistas, seja por situações e pessoas que buscam nada além daquilo que podemos oferecer. Mas estamos tão envolvidos pela satisfação do que nos parece tangível, que ignoramos as muitas pequenas pétalas vermelhas ao nosso redor, nos esquecendo do quão importante pode ser a diferença que podemos fazer àqueles ao nosso redor.

Tais quais pequenas pétalas, amizades genuínas, por exemplo, são tão ou mais raras que chegam ao ponto de custar um sorriso desarmado, um abraço longo, ou mesmo a sinceridade da confissão de um fracasso com o coração aberto. Um pôr-do-sol num gramado, um tempo de oração, uma tarde de conversa com nosso avô, um tempo sob a brisa do mar... são muitos os exemplos de pequenas pétalas preciosas que nos ajudam a lembrar do que realmente tem importância e de quem realmente somos de fato.

Se muito já ficou para trás na apressada ampulheta de nossas vidas, aproveitemos com intensidade o que nos resta e olhemos para as pétalas vermelhas ao nosso redor. Desçamos de nossos pedestais, rompamos nossa casca, e lutemos por brilhar. Não nos omitamos! Fomos destinados a reinar em meio a tanto concreto e indiferença.

Uma pétala vermelha, uma fissura na calçada, e eu já sem fome. Sem fome, mas feliz. Se do lado de fora havia desafios e um mundo por mudar, por dentro havia Vida. E com ela luz, amor e esperança.

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Bruno Frossard, e blogueiro Contextual, um curioso inquieto sobre temas que passeiam pela formalidade da política, a ortodoxia da economia e singularidade da fé.

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