Vai chover

Ontem eu me apaixonei de novo por você. Não que a primeira paixão tenha acabado. Longe disso. Foi mais como que um garçom completando o seu copo, sabe? Aquele que no meio da festa já está meio vazio. No meu caso, meio cheio.

Aconteceu quando eu estava sentado na poltrona da sala procurando no livro de Neruda aquele poema que lemos juntos durante o pôr do sol de Punta Balena, lembra? ‘Dame La Maga Fiesta’.

“Dios – de dónde sacaste para encender el cielo este maravilloso crepúsculo de cobre?...”

Não importa mais. Não importava mais. Na hora parecia dívida de morte, mas agora nem lembro mais por que procurava aquele poema. Só lembro de você na janela. Cabelo preso em coque. Com o hashi que roubamos daquele japonês do bairro da Liberdade em São Paulo. Aquele que você adora e eu nunca lembro o nome. Aquele em que uma vez encontramos um cantor que você adora e eu nunca lembro o nome. Aquele que... você lembra, eu sei. Mas isso também não importa.

Nada importa. Porque naquele momento em que eu achei o poema de Neruda e você estava com o cabelo preso pelo hashi que roubamos do japonês... naquele momento, eu me apaixonei de novo por você.

Aconteceu quando eu estava sentado na poltrona da sala. Eu ia dizer: achei, amor, achei! Mas você se virou antes com aquele cabelo preso em coque e disse: acho que vai chover. E naquele momento, eu vi mais poesia em você e na sua previsão do tempo do que em todos os livros de Pablo Neruda juntos e todos os pôr de sois que já vimos em Punta Balena, Praia da Concha ou Farol da Barra.

E o meu copo estava de novo cheio. Até a boca. Faltou ar, palavra, verso, prosa. Sobraram batidas de coração, frios na espinha, lágrimas nos olhos e uma vontade absurda de te chamar pra dançar até o resto de minha vida.

Ontem eu me apaixonei de novo por você. E, não sei porque, acho que hoje vai voltar a acontecer.

“Y me iré por los campos em la noche estrellada

Com los brazos abiertos y la frente desnuda

Cantando aires ingenuos com las mismas palabras

Que en la noche se dicen los campos y la luna.”

Pablo Neruda

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Mário Garcia Jr. é blogueiro Contextual, publicitário, metido a cozinheiro, joga bola de teimoso, mas gosta mesmo é de escrever.

#MárioGarciaJr

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