Conselho Sem Classe


A escola em que meu filho de 11 anos estuda avalia ele semanalmente. Toda sexta-feira tem prova. Acho um exagero. Mas aí, outro dia, eu fiquei pensando: e se eu saísse do papel de ex-aluno e atual pai de aluno? E se eu virasse um pouco ESCOLA e resolvesse avaliar a ESCOLA? Por que não?

Um mal necessário. É assim que eu avalio a ESCOLA de hoje. E se eu fosse uma ESCOLA, minha avaliação terminaria aqui. Seca e fria como um 6, um 5 ou um 9. Mas eu não sou ESCOLA. Ainda bem. Para mim e para o meu filho.

Por não ser ESCOLA, eu não o avalio nem o julgo pelo que ele sabe ou aprende. Muito menos pela nota que ele traz na caderneta. E sim pelo que ele é. E ele é foda. Educado, inteligente, curioso, carinhoso, esperto, cheio de carisma, com uma liderança natural, um jeitinho tímido tão doce, defeitos tão desafiadores, problemas tão humanos, que só sendo muito ESCOLA para não perceber. Procuro guiar meu filho pelo caminho da humanidade, da bondade, do amor, do entendimento, do respeito, da convivência harmônica, da tolerância pacífica, do procurar sentir, pensar com o coração, por que não?

Já a ESCOLA de hoje, continua exatamente a mesma que frequentei entre 1977 e 1990. E muito parecida com a que meus pais e avós frequentaram na primeira metade do século XX. Com exceção de alguns recursos tecnológicos que não existiam na época. Hoje não tem mais cópia mimeografada. Não tem mais pós de giz no quadro verde. Nem transparência feita com piloto no papel de acetato. Os laboratórios têm mais equipamentos, certamente. Toda sala tem ar condicionado. As carteiras são mais confortáveis. Os quadros são brancos, mas... as celas continuam claustrofóbicas, as janelas continuam fechadas e os olhos vendados. Para o horizonte, para o sentimento e o movimento das pessoas.

Os conteúdos como um todo continuam irrelevantes. A metodologia, com raras exceções, continua enfadonha. O sistema de avaliação continua cruel. A ESCOLA continua seguindo a mesma lógica do final do século XVIII: formando massa acéfala para o mercado de trabalho. O que não é muito lógico. Porque até o mercado de trabalho mudou. E continua mudando. Cada vez mais rápido. E exigindo habilidades que a ESCOLA não contempla ou relega a segundo plano. O ensino em série, que produz robozinhos mecanizados continua o mesmo. A ESCOLA não leva em consideração as individualidades, as competências natas, os dons naturais de cada aluno. Prefere tratar a todos da mesma maneira. Como se não houvessem aptidões diferentes, talentos únicos, jeitos singulares de lidar com o aprendizado. O rapaz que tem facilidade com o pensamento analítico faz a mesma prova que a garota cheia de inteligência emocional. A ESCOLA continua querendo igualar os diferentes. E pior, continua querendo que todo mundo concorde com a ideia de que somos todos iguais. Não somos. E não merecemos ser tratados como tais.

O resultado de tudo isso? Não, não é passar de ano. É passar a ser um adulto cheio de frustrações. Uns porque se dedicaram muito. Fizeram todas as pesquisas e exercícios tolos, todas as tarefas sem importância prática. Estudaram todas as linhas de todos os capítulos, decoraram todas as palavras, responderam todas as provas cheios de medo de “se dar mal”. Para depois, adultos, perceberem que perderam grandes momentos de suas vidas debruçados sobre coisas que não lhe servem de quase nada. Que melhor seria ter dedicado mais tempo a pular amarelinha, jogar bola ou brincar de vídeo game; outros porque não se encaixaram, tiveram dificuldade para entender, vergonha de perguntar, falta de companhia para estudar, falta de jeito para pertencer. E, desde então, foram tachados como pessoas menores, incapazes, incompetentes, maus exemplos. A ESCOLA cria preconceitos. Valoriza o “certinho”, o “bonzinho”. Marginaliza o que não se adapta, o que questiona, o que coloca o dedo nas feridas.

O que é ser “bom aluno” afinal? É fingir que gosta do professor chato? Puxar o saco? É copiar o quadro inteiro no caderno sem saber o que está escrevendo? É decorar todo o assunto da prova mesmo sem entender nada? É não pensar? É ser apenas um repetidor? É não questionar? É aceitar tudo? Senhora ESCOLA, pare de distribuir rótulos! Não diga que um ser humano é mau aluno só porque ele não suporta nem se encaixa em seu sistema educacional atrasado e sem graça. Aliás, pare de tratar pessoas como alunos. Pessoas são pessoas. Em vez disso, faça como elas, evolua.

É claro que a ESCOLA tem seus pontos positivos. Hoje há mais respeito pela opinião do aluno. Uma visão um pouco mais humana. Atitudes e estruturas que visam mais o bem-estar deles. Atividades mais artísticas e lúdicas, que valorizam a criatividade. Mas ao meu ver, o melhor da ESCOLA continua sendo tudo aquilo que não está nos discursos dos professores nem dentro dos livros didáticos. O melhor da ESCOLA está na convivência, nas amizades que nascem, entram em crise, morrem, renascem, se fortificam. Nas negociações de espaço, na demonstração das individualidades, no entendimento da existência de personalidades diferentes. Nos trabalhos em grupo, nas construções coletivas, no compartilhamento das experiências extraclasse, na distribuição do saber adquirido na vida, na troca de ideias, no contraponto de pensamentos, nas disputas, nas pequenas rixas, na construção de sentimentos... Se a ESCOLA fosse minha aluna, eu diria: você tem um potencial incrível, mas se não mudar de atitude, vai continuar sendo medíocre.

E vai continuar perdendo a competição pela preferência da garotada. Sim, porque se a criança prefere jogar vídeo game a fazer o dever de casa, a culpa também é da ESCOLA. Se o adolescente prefere entrar na internet para ver youtubers em vez de pesquisar, a culpa também é da ESCOLA. Se o jovem prefere ler um gibi do que um livro de história, a culpa também é da ESCOLA. O conhecimento é algo fascinante! Muito mais legal do que a maioria das formas de distração ou de lazer. Mas você, dona ESCOLA, está estragando tudo. Tirando o brilho e o encantamento de saberes tão interessantes com exposições maçantes, conteúdos irrelevantes e avaliações injustas. Está conseguindo transformar tudo o que pode ser lindo e empolgante em algo chato e sem graça.

Como eu disse lá no início, meu filho, assim como a grande maioria das crianças, é educado, inteligente, curioso, carinhoso, esperto, cheio de carisma, tem uma liderança natural, uma doce timidez, defeitos e problemas. Foi assim que ele chegou até vocês. E se ele não consegue se interessar ou se empolgar pelo que aprende, a culpa também é SUA.

Mas, provavelmente, assim como a grande maioria das crianças, ele vai entender como o sistema funciona, vai abrir mão de algumas coisas mais importantes e de outras mais interessantes, vai se encaixar, vai passar de ano, mesmo que seja com notas medianas, e vai se formar. Já a ESCOLA, por receber crianças sensíveis, criativas, verdadeiras, cheias de sonhos e encaixotá-las, domesticá-las, podá-las e transformá-las em pessoas iguais e medíocres, está REPROVADA!

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Mário Garcia Jr. é blogueiro Contextual, publicitário, metido a cozinheiro, joga bola de teimoso, mas gosta mesmo é de escrever.

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