No Porto da Barra, o medo de mergulhar.


Ele é destemido e decidido. Sempre foi.

Só que desta vez olha para o mar e tem medo de mergulhar. Já não se joga como quando criança, de cabeça, dando cambalhota. Ele olha atento, seus olhos marejam como quem lamenta a falta de coragem.

Ela tarda, mas vem. A vontade de submergir foi maior do que o medo do que iria encontrar lá embaixo. Vai.

Uns três longos segundos e um impacto na água. Desce até quatro metros, olhos fechados, o ar escapa aos poucos pela boca e nariz. Ele só quer descer.

Aquele mundo lhe trás conforto, silêncio e reflexão. Lembra das pessoas que lhe cruzaram o caminho, sente falta de algumas, de outras nem tanto. Um vazio enorme na sua barriga parece ser preenchido pelo vazio do fundo do mar.

Desce mais um pouco. O ar parece acabar em eternos cinquenta segundos. Mas ele quer ficar mais por lá...

Abre os olhos, olha para cima e vê o sol entrando na água como se por uma lente de aumento. Quer resgatar-lhe pelos cabelos. Mas ele abaixa a cabeça e deixa a nuca voltada para cima. Ali ele é Kairós. Não tem cabelo na nuca. O sol então se sente frustrado e angustiado pelo medo do desejo dele de ficar ali ser eterno.

Ele sabe que tem que subir, mas lhe falta coragem para voltar ao mundo externo do Chronos. Nele lhe falta uma alma leve para interagir, lhe faltam sorrisos largos, conversas despretensiosas. Lá o tempo lhe devora.

Submerso as mãos não tremem, a voz se cala, as lembranças são boas e a única pressão que há é nos tímpanos. Mas é uma pressão boa, que ajuda a calar as mazelas ensurdecedoras do mundo externo.

Falta coragem para subir. As palavras ditas, arrependimentos e sofrimentos passam como flash diante dos seus olhos mortos. Palavras são erros e os erros são seus. Ele não quer lembrar que erra também.

Então os pés tomam a decisão pelo corpo inteiro. Começam a bater e a mover aquele corpo semimorto para a superfície. Quase roxo, ele rompe a linha entre os dois mundos e pega todo o ar disponível na Barra. Abre os olhos salgados e vê as pessoas na areia.

Os olhos ardem. É só mais uma segunda-feira. E é hora de sair da água e continuar a fazer tudo como antes.

Aos poucos as lamentações e incertezas começam a preencher suas veias novamente. O sol lhe trouxe de volta à vida sem vitalidade. Ele está vivendo de novo. Na verdade, ele estava vivo. Agora, morrendo de novo.

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Rômulo Lunelli, desfragmentador de pensamentos e devaneios, procurador federal, compositor e músico por paixão e blogueiro Contextual.

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