Passo a passo: reflexões sobre resiliência


Habilidade de se adaptar aos desafios em face de desvantagem social ou em condições altamente adversas. Capacidade de se recuperar de modo pleno quanto a uma ou mais experiências negativas. Competência essencial demandada de líderes que anseiam conduzir seus times em processos de superação de momentos de crise mais aguda. Muitas são as formas de se conceituar o termo resiliência. Mas como aprendê-lo na prática? Como aprendê-lo de fato e verdade?

Fazia muito frio. Eu estava zonzo e alucinava. Tinha perdido o senso de direção e já não tinha força para andar sequer por mais alguns metros. Eram os efeitos do “soroche”, também conhecido como “mal agudo das montanhas”, moléstia advinda da falta de oxigenação no cérebro, típica de regiões mais altas com ar rarefeito.

Lá se vão quase duas décadas. Eu havia acabado de me formar e, para celebrar aquele marco, decidira reunir toda a renda que havia acumulado até então – meros 628 reais – e sair sozinho em viagem com uma mochila nas costas por pouco mais de um mês pela América do Sul.

No cronograma, entre as maiores expectativas estavam a escalada de uma montanha chamada Salkantay (6.172 m), no Peru. Para algo assim, se supõe um enorme preparo prévio, um fantástico condicionamento e muito estudo quanto ao que estaria adiante...

Mas não foi exatamente isso que acontecera. E se, por um lado, faltara planejamento, sentia-me gigante tanto fisicamente, como na audácia. No entanto, passados somente seis dias de minha partida, eu estava ali: perdido e desfalecendo sem forças.

Logo após a breve euforia de atingir o cume, eu havia me perdido do grupo de alpinistas que eu havia tomado parte. Bastara meia hora a partir da saída da zona nevada na montanha para conseguir me perder completamente do restante do grupo. Sozinho, tive de decidir entre seguir junto ao rio formado pelo degelo e uma possibilidade de trilha mata adentro na zona intertropical.

Como os efeitos do “soroche” haviam voltado e chegaram ao ápice, entrei em estado de quase desespero. Que fazer ao dar por si sem forças, perdido e alucinando? Era como me sentia.

Parecia surreal. Eu olhava pra mim mesmo e não tinha força pra avançar. Olhava ao redor e aquela sequência de montanhas ligando o chão ao céu parecia sufocar.

E o que havia à frente? Até o limite da visão aquela sequência de montanhas grudadas umas às outras parecia se conectar ao horizonte formando um vale infinito no olhar. Não havia chance. Parecia o fim.

Em meio ao surto delirante, comecei a gritar pedindo para acordar daquilo que bem podia ser só um sonho para, logo após, abrir os olhos e ver o teto de meu quarto... Mas não se tratava de um mero pesadelo: era real!

Passei então a gritar, gritar e gritar por ajuda, mas tudo seguia irretocavelmente igual. Aos brados, pedi desesperadamente pela ajuda de Deus.

Em resposta, nada além de silêncio.

Passou-se um tempo e o silêncio acabou sendo quebrado pela chegada de um portador, um nativo carregador de barracas e apetrechos. Não sei exatamente de onde ele surgiu, mas ao me aproximar pedindo por ajuda num espanhol balbuciante, tive por resposta de que ele nada podia fazer, além de me permitir segui-lo de perto.

Mas, como o seguir, se eu não tinha forças para caminhar sequer por mais alguns metros?! Aceitei, mesmo sem saber como. A situação em si não inspirava nenhuma possibilidade de sucesso: não podia olhar ao redor, não podia olhar para frente, nem podia olhar a minha própria condição. Tudo parecia contrário.

Instintivamente, acabei concentrando a atenção nas últimas palavras do nativo e passei a me esmerar com todas as forças restantes em simplesmente pisar exatamente no mesmo lugar em que o nativo, alguns metros à frente, pisava.

Passo a passo, pegada a pegada, e toda minha energia e atenção ficara concentrada em simplesmente pisar exatamente onde ele pisava. E segui assim cruzando a zona nevada, a intertropical e mata adentro.

Nada mais havia, nem mesmo dor, problemas, limitações ou temores. Toda minha concentração, toda minha força estava ali focada na perfeita execução, em pisar exatamente onde aquele carregador pisava.

Um lapso de tempo depois, eu chegava ao acampamento base, me juntando àqueles de quem eu havia me perdido. Sem perceber, haviam se passado cerca de cinco horas e mais de quinze quilômetros. Inexplicavelmente, eu havia conseguido! Estava vivo.

Tanto tempo depois, é engraçado lembrar tudo isso. Por vezes, os problemas e a pressão se avolumam em tal monta que parece impossível resistir. Sentimo-nos incapazes e ao olharmos para todas as direções, nenhuma alternativa parece viável para a superação do que está posto. A sensação beira o desespero.

No entanto, na maioria desses momentos sabemos a direção que temos de seguir. Ainda assim, sem forças, como avançar? A solução aprendida que me salvou a vida resume-se em concentrar toda a atenção e energia na execução do próximo passo.

Depois, sem intervalos para divagações, mas com as forças e atenção absolutamente focadas na execução do próximo passo, pisando só ali, exatamente onde se sabe dever pisar. Depois, o próximo passo. E então, o seguinte. Passo a passo, avançamos. E sem olhar para nada mais.

Aplicável tanto a um caso pessoal, como quanto à frente de grandes organizações, concentrar a energia, colocando integralmente os olhos e o coração dos envolvidos na execução do imediato próximo passo não somente permite que avancemos largas distâncias em momentos de crise, como certamente nos preserva a vida!

Hoje, essa situação me veio à mente e é difícil expressar o quão enormemente a lembrança de tudo isso me encorajou e animou. Tombos, dificuldades e problemas sempre existem. Mas lembrar de toda essa situação e olhar em perspectiva atentando para o quanto eu havia amadurecido e em que havia me tornado não importando crises, contextos, pressões e dificuldades, foi simplesmente incrível!

A tal resiliência que descobri haver em mim naquela primeira lição de anos atrás moldara muito do que ocorrera depois, e me ensinara - talvez da maneira mais simples - que em condições em que o mais absoluto caos parece cercar às nossas organizações e times, o maior desafio que temos é o de direcionar e alinhar o foco dos nossos times para a execução dos planos traçados, com estrita atenção na execução, no próximo passo.

Passo a passo. Sempre.

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Bruno Frossard, e blogueiro Contextual, um curioso inquieto sobre temas que passeiam pela formalidade da política, a ortodoxia da economia e singularidade da fé.

#BrunoFrossard

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