Um destino tão sonhado e uma trajetória tão esquecida

Passamos a vida tentando chegar a algum lugar. E, quando chegamos, tratamos de arranjar outra meta, que passa a ser nosso novo destino.

Com isso, pouco nos importamos com a caminhada. Importa mesmo é a chegada. O sentido da vida é atingir o objetivo sonhado.

Só que pensar assim tem uma desvantagem: não vivemos o dia. Estamos sempre numa eterna busca pela felicidade e não nos realizamos com o que a vida nos proporciona a cada dia. Não damos sentido à caminhada.

Outra consequência de não dar valor ao caminho que se percorre é que, somente quando a morte se avizinha, nos damos conta de que, todos os dias, perdíamos mais um dia que deveríamos ter aproveitado. Foram milhares de dias que passaram por nós como um estranho que nos cruza o caminho e nem notamos, já que nosso olhar está sempre no futuro.

Hoje acordei cedo. Eram 6 da manhã. Coloquei um copo de café no micro-ondas e, distraído, programei tempo demais. De fora, assisti ao café borbulhar, ferver e explodir. Ele agonizou e morreu sem que eu tivesse recebido qualquer aviso ou mesmo pudesse alcançar o botão “cancelar”.

Imediatamente lembrei-me de uma conclusão a que cheguei em novembro de 2009: a morte não tem trilha sonora. Não é como nos filmes, que uma posição de câmera enseja um clima mais tenso, a música vem e transmite suspense, acelera a batida, entram mais instrumentos, violinos gemendo e buuum! Só então alguém mata outra pessoa.

Assim como hoje chegou ao meu café, em novembro de 2009, a morte quase chegou para mim sem qualquer aviso e, muito menos, trilha sonora.

Justamente eu, que adoro música, que costumo achar que o para-brisa do meu carro é uma tela de cinema e que o som dele é a trilha sonora de um clipe ou um filme que assisto enquanto dirijo, fui surpreendido por algo inesperado e sem qualquer dica de que iria acontecer...

Era dia claro, fazia sol, eu dirigia a 100 km/h numa BR, passando por Bacabal/MA e indo em sentido a Imperatriz/MA, quando uma poça d'água fez meu carro aquaplanar, sair da pista, capotar duas vezes morro abaixo e parar de cabeça para baixo na cerca de uma fazenda no meio do nada.

E tudo isso, só de sacanagem, sem música de perigo, sem efeitos de sonoplastia e sem luz frenética. Nada. Nem um violinozinho para dar um clima.

E o pior: até o CD que eu estava ouvindo no som do carro parou na primeira capotagem. Lembro como hoje que a música era Axé Minas, do Jammil. Há quem diga que ela não parou, mas que meus ouvidos taparam, como numa reação do organismo para preparar-se para a tentativa de sobrevivência. Dizem que as funções biológicas todas se alteram em estado de extremo perigo e que, por isso, eu teria deixado de ouvir aquela coisa desnecessária...

De um jeito ou de outro, não teve música e a porrada foi forte. Por óbvio, não morri. Mas fiquei desacordado, fraturei uma vértebra da cervical e só acordei com cidadãos gentis que me perguntavam se eu estava bem - enquanto me saqueavam. Queriam cuidar mais dos meus pertences do que de mim...

[pausa para reflexão: existe uma “common law” nas estradas que permite que “cidadãos de bem”, não habitualmente ladrões, saqueiem tudo em acidentes, sobretudo cargas de caminhão e pertences de otários indefesos desmaiados e virados de cabeça para baixo que gostam de escutar Jammil ao capotarem].

Mas, voltando. Um socorro em Bacabal/BA, uma SAMU para Teresina/PI e uma UTI aérea para Salvador/BA depois, cheguei a essa brilhante conclusão. Não tive direito às famosas experiências quase-morte (EQM's), não vi entes queridos me dando a mão, não vi túnel, não me arrependi dos pecados, não vi uma luz que me chamava acompanhada de uma sensação de paz e serenidade, etc. Nada.

Não tive direito nem a musiquinha de suspense e perigo. Apenas a um carro parecendo que dançava no sabão, uma sensação de looping de montanha russa de parque brasileiro (tipo as da Disney da década de 80 que hoje equipam países emergentes) e um apagão.

E para além de toda essa frustração da minha mente fértil de artista, que esperava uma quase-morte cinematográfica, o que restou?

Restou compreender o que comecei falando no início do texto. Que na vida estamos sempre buscando chegar a algum lugar para, somente então, nos sentirmos plenos.

Vivemos sempre o tempo do futuro. Só que jamais nos sentiremos plenos de verdade, pois nossas expectativas mudam a cada passo que conseguimos dar. Por isso, procuro hoje (e nem sempre consigo) dar sentido à própria caminhada. Me sentir pleno em caminhar em alguma direção, ainda que almeje chegar a algum lugar.

Assim, quando a morte chegar, eu posso dizer para ela, no curtíssimo espaço de tempo que teremos para conversar, que estou indo feliz e realizado com minha trajetória, ainda que não tenha chegado a um destino tão sonhado...

Aproveite a sua caminhada. Você pode encontrar felicidade nela também.

----

Rômulo Gabriel Lunelli. Canhoto, casado com o direito, amante da música e dando uns pegas na literatura. Cantor, compositor, instrumentista e fundador do projeto MWSA (Music, Wine and Some Attention). Pai apaixonado e procurador federal. Blogueiro Contextual.

#RômuloLunelli