Pontes desfeitas

Ao longo da existência, muitas pontes são erguidas, outras destruídas. Normalmente, a reconstrução, das ligações rompidas, tal como era antes, não é possível. O rio precisa reorganizar-se e, de uma forma criativa, deixar que o fluxo das águas se acalme, a fim de se reinventar.

No encontro entre os pares, pontes são projetadas, todavia, nem sempre elevadas sobre os mesmos pilares. Tornam-se eternas, quando transcendem pela amizade e amor ou finitas, cessando pela disparidade, quando seus extremos são erguidos por sentimentos incertos e abstratos.

Conheceram-se há quinze anos no ambiente de trabalho. Ele, de outras bandas do nordeste – tímido, calado, estranho a tudo e a todos – longe do seu habitat. Ela, típica baiana – falante, acolhedora, de sorriso largo. Logo tratou de deixá-lo a vontade entre os seus colegas.

Ao final do expediente, uma simples pergunta foi o suficiente para travar uma relação de proteção e afeto:

- Quer uma carona?

Ele aceitou. E assim, a ponte erigiu-se!

Tornaram-se “amigos”. E mesmo sendo alvo de especulações e insinuações capciosas, viviam como duas crianças, movidos, tão somente, por papos despretensiosos sobre a vida ou tolices do trabalho; confidências amorosas; shows; passeios; eventos da empresa. E se os seus parceiros não tinham dúvida do que os ligava, por que eles se importariam?

E o tempo gerou acontecimentos aos dois: aprovação em concurso, casamento, nascimento de filho, mudança de Estado, de emprego, de endereço, e mesmo assim, afastados fisicamente, a ponte continuava em construção. Havia algo grandioso que os enlaçava, mesmo sem sequer perceberem.

O mesmo tempo gerou separações. A dela antes. A dele, bem depois. Nela, a solidão. Nele, muita dor e ressentimento. Resolveram encontrar-se no exato cruzamento entre o Oceano Atlântico e a Baía de Todos os Santos, e tinham como pano de fundo, o pôr do Sol no Farol da Barra.

Entre abraços, sorrisos e afagos, rememoraram as experiências armazenadas do passado e naquela noite fria de agosto, cortaram a madrugada em dizer por onde estiveram em tanto tempo em que não passaram juntos. Quando o sono os venceu, os seus corpos buscaram-se e desde então seguiram juntos e todos os seus dias não foram iguais...

Passearam pela vereda da felicidade, pelo bosque de longos beijos e na conexão astral entre corpo, mente e espírito, onde suas essências combinavam-se em um autêntico balé de almas afins. Ela podou suas dores e mágoas e ele logo se reinventou, aprendendo a gostar de si e tendo esperança na vida.

Suas aflições foram diluidas e ele “só queria estar ali”, na verdade, “não tinha onde ir” e a nobre construção que interligava os pontos mais inacessíveis e separava grandes obstáculos, passou a transpor mentiras, desejos lascivos e conveniência.

E como pontes aparentes não se sustentam, irremediavelmente, deixam de existir...

Envolvido em seus deleites, ele passou a questionar os dias e os momentos que percorreram juntos. Iniciou um jogo sórdido que só ele conduzia e ditava as regras e que, sem saber, jogavam três. As declarações de amor que dantes os envolviam, evocavam o passado, exprimiam o presente e prediziam o futuro, tornaram-se vãs.

Os sentimentos, enlaçados em um sorriso de carinho e afeto, viraram a esquina dubia. As pontes ruíram. Ele - o rei branco solitário - vive de alimentar suas fantasias. Ela - a rainha preta - segue o curso natural das águas, buscando desaguar no oceano.

Entre eles não há mais ponte. TUDO É FICÇÃO, o abismo os separa. Afinal, “existirmos: a que será que se destina?”

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AnaCris Magalhães, blogueira Contextual, mãe, advogada, amante do Direito Penal, cantora e artista nos cantos da casa, apaixonada pela vida e, em busca da alegria e do amor que esta pode ofertar.

#AnaCrisMagalhães

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