Era uma vez na Amazônia


Amanheceu uma terça-feira ligeiramente chuvosa, percebi um sol tímido tentando exibir-se. Decidi fazer um passeio na cidade - o Safari Amazônico, partindo do Porto de Manaus. Eu já estava há dois dias imersa na floresta amazônica, num quarto isolado, sem TV, sem Wi-fi, sem sinal de celular, sem comunicação direta com a recepção do hotel, sem voz humana nas proximidades! Único contato com a natureza selvagem, cheia de vida!

Percebi que dois dias na floresta já haviam me transformado: MIM estar mais SELVAGEM! No Porto, o guia Francisco avisa com sotaque manauara: "keep your cellphone in the pocket"! Mim não entender, mim ser brasileira!

Me achei inadequada naquela situação: um mar de pessoas, na correria do dia a dia, se esbarrando umas nas outras... lembrei que existe meio de transporte, além da coragem, dos pés, do barco e da canoa, lembrei da falta de educação no trânsito, de pessoas falando alto e querendo ser mais espertas umas que as outras.

Ainda me lembrei de quando estive na floresta dos macacos, onde aprendemos toda uma hierarquia e respeito entre as diferentes raças e gêneros. Também lembrei da caminhada na selva, onde pudemos encontrar uma série de plantas medicinais e entender que é possível sobreviver na selva, quando se tem conhecimento do que se encontra pela frente...é possível encontrar água potável nos cipós d' água, anti-inflamatório, anestésico, repelente, protetor solar, paralisante, aromatizante e até fixador do perfume Chanel, tudo ali ao nosso alcance... infelizmente, pouco explorada pelos brasileiros.

Aprendi que, pior que os formigueiros e os cupins, os chineses são os maiores destruidores da floresta!

E senti a falta do silêncio do meu quarto assustador...Comecei a me sentir mais segura na selva. Será que estou ficando amiga da onça?!

Senti a falta da arara que, pontualmente, pela manhã, espera, educadamente, que alguém lhe ofereça um pedaço de banana ou queijo e depois vai embora retribuindo com um show de vôo rasante. Da onça que não deu o ar da graça e só deixou as pegadas na areia, silenciosamente, sem incomodar ninguém. Da aranha que, do alto da parede do meu quarto, me observava sem me perturbar, me dizendo “estou com você”. Do pequeno escorpião que me recebeu de volta do passeio ansioso, com o ferrão brilhoso, ao lado da cabeceira da minha cama e eu ainda lhe dei uma chinelada. Dos lagartos que cruzavam meu caminho sombrio de volta ao meu quarto. Das pererecas que pulavam de alegria ao me ver passar. Do pica pau que me dava bom dia todas as manhãs. Dos animais não identificados que, à noite, rastejavam sobre o teto do meu quarto numa canção de ninar. Do jacaré que se deixou hipnotizar pela luz ofuscante da lanterna para que pudesse receber o meu toque! Do pirarucu que, assado, me esperava todos as noites para jantar. Do macaco que, ingenuamente, veio até mim acreditando que eu o daria uma castanha em troca de uma foto.

Pobre macaco, mal sabia que eu era humana!

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Fabrícia Moitinho, Fisioterapeuta, curiosa, inquieta, aventureira, cidadã do mundo e blogueira Contextual.

#FabríciaMoitinho

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