Encarnei em Você.

Baseado em fatos reais.

Quando eu te conheci, a gente era cavalo. Na Mongólia. Não sei o ano. Mas sei que todos temiam um tal de Gengis Khan. Viviam falando dele. Eu era um velho cavalo de sela. Você, uma nova potranca de raça, que servia a Azarga, o garanhão da fazenda. Fazia parte do harém dele. Lembro quando te vi pela primeira vez. Levava um gordo no meu lombo. Fomos pegar Azarga para levá-lo até você. Sempre olhava para baixo quando estava ao lado do garanhão. Não queria que ele achasse que eu estava procurando briga. Mas naquele dia, ao chegar na sua baia, quando te vi, não acreditei. Pela primeira vez em meus 25 anos de vida, senti minhas patas tremerem. Sua crina cor de ouro, seu pelo cor de cobre, seus olhos cor de mel. Tudo em você me fazia querer empinar e correr e rinchar e relinchar, mas com aquele gordo no meu lombo...Quando percebi que era você que o garanhão iria cobrir, fiquei louco. Alguma coisa dentro de mim dizia que você era minha e não poderia servir de monta para mais ninguém. Derrubei o gordo. Fui pra cima de Azarga. Lutamos ferozmente. Nem eu conhecia aquela minha coragem. Ele me massacrou. Deitado na relva, vi vocês dois fugindo juntos pelas estepes. Quis morrer. Mas nem para isso eu tinha forças.

Quando eu te vi de novo, era cachorro. E você, gata. O nome do meu dono era Bartolomeu Dias. Ele me levou a um lugar muito bonito, uma casa gigantesca, cheia de janelas e torres. Fomos recebidos por pessoas que usavam roupas estranhas. Você repousava no colo de uma mulher que estava sentada em uma cadeira toda ornada. Quando meus olhos encontraram os seus, fiquei cego para todo o resto. Que gata! Pelo branco e espeço, nenhuma mancha. Olhos cinza esverdeados. E uma pose de efígie. Você não se mexia. Comecei a querer chamar sua atenção. Tentava fazer todos os truques que conhecia e que normalmente deixavam os humanos felizes. Mas você continuava me ignorando. E o meu dono, mandando eu ficar quieto. Até que não resisti, me soltei e fui para cima da sua dona. Você pulou do colo dela e correu. Eu fui atrás. Chegamos a uma sala vazia. Você ficou calma. Ia de um lado para o outro, levantava e abaixava o seu rabo. De vez em quando soltava um miado. E eu sentia o meu coração disparar. Você se aproximou, como quem não queria nada. De repente, se encrespou toda e saiu correndo. Eu quase tive um infarto. Nunca tinha sentido tanto medo em minha vida. Depois disso, o meu dono apareceu e me carregou. Me levou para uma caixa de madeira enorme, que andava sobre as águas. Eu fiquei dias olhando o horizonte, achando que você poderia aparecer nadando ou em outra caixa flutuante, sei lá. Morri afogado tentando voltar.

Na terceira vez que te vi, eu era um gato. O meu dono era um cientista francês de nome Abraham de Moivre, mas morava na Inglaterra. Numa noite, um dos melhores amigos dele, um tal de Newton, que normalmente estava sozinho, apareceu com você presa a uma coleira. Eu nunca tinha visto uma cadela tão bonita. Seus pelos cor de champanhe eram lisos e levemente ondulados. Aqueles olhos claros e penetrantes me hipnotizaram. Eu fiquei deslumbrado. Não conseguia me mexer. Você olhou fixamente para mim. Parecia estar com medo. Ficava se escondendo entre as pernas do seu dono. Estava tão encantado, que não consegui comer por uma semana. Depois daquela noite, todas as vezes em que o senhor Newton chegava, eu corria até a porta para ver se te encontrava. Mas você nunca mais apareceu.

Em 1802, depois de voltar do campo de batalha contra as tropas de Napoleão, eu não tinha mais nada. Casa, família, amigos. Perdi tudo. Passei a morar nas ruas de Londres. As feridas de guerra demoraram a cicatrizar, mas a ajuda de algumas almas bondosas me deu força, ao menos, para batalhar por comida. Não havia emprego. As lutas contra a França tiravam tudo de nós. A Grã-Bretanha sofria e sua população penava. Uma das filhas do Rei Jorge III com Carlota Sofia, que eu não vou lembrar qual – eram 9! – tinha a mania de sair à noite para caçar homens. Em uma dessas investidas, eu estava dormindo ao lado de um dos escolhidos. Os gemidos da princesa me acordaram e ao abrir os olhos me deparei com você, que fez sinal para que eu permanecesse em silêncio. Nunca havia visto uma mulher mais bonita em toda a minha existência. Você, não a princesa! Pele levemente rosada, cabelos castanhos e encaracolados, olhos azuis, traços finos, algumas sardas acima do nariz, boca carnuda. Levantei em um pulo. Empurrei-a contra a parede. Roubei-lhe um beijo. Você me estapeou. Disse que era amante do Príncipe de Gales, que tinha um futuro, que deitar com mendigos era mania da princesa. Que estava ali apenas para acompanhá-la. E me jogou de volta ao chão. Nunca mais te vi. Morri de cólera e de amor alguns anos depois.

No início do século XX, 1903 para ser mais preciso, eu era filho de escravos recém-alforriados. E ajudava minha mãe a vender bolinhos de acará pelas ruas da capital da Bahia. Um dia, passando pela Rua Chile, encontrei você acompanhada de sua mãe, olhando a vitrine de uma loja. Pelo reflexo do vidro, eu vi a garota mais bonita do mundo. Cabelos negros, pele levemente bronzeada, olhos escuros e um sorriso que iluminava tudo. Não conseguia me mexer. Você entrou na loja e eu fiquei na porta. Um homem saiu de lá de dentro e me enxotou. Procurei minha mãe e não a vi mais. Atravessei a rua e fiquei ali, perdidamente apaixonado, esperando. Quando você saiu da loja, eu corri até lá e perguntei se você queria bolinho de acará. Você sorriu e disse que sim. Mas sua mãe ficou te puxando e vocês saíram quase correndo. Passei a te caçar pela cidade e a te seguir todas as vezes em que te via. E foram muitas. Vi você indo à missa com seus pais, indo à escola com seus irmãos, indo ao baile com seus amigos... nunca me aproximei. Tinha vergonha da minha cor. No dia do seu casamento, montei minha caixa de engraxate ao lado da Igreja do Boqueirão e fiz um bom dinheiro. Depois vi você levando seu marido na porta, seus filhos para tomar sol na praça do caboclo, sua mãe para a igreja rezar... morri atropelado no Corredor da Vitória, depois de cair de uma árvore, onde tentava te ver pelo janelão da sua casa.

Já no século XXI, eu era um cara normal, classe média, professor e publicitário, casado e separado duas vezes. Um grande amigo meu estava fazendo aniversário e, depois de algum tempo, era a primeira vez que a gente ia conseguir reunir a turma toda. Quase todos estavam morando fora. Era uma segunda-feira meio morta, entre o Natal e o Réveillon. Dia 28 de dezembro de 2009, para ser bem exato. Decidimos ir para o ensaio do Cortejo Afro no Pelourinho. Astral lá em cima, muita cerveja e conversa boa. Dançávamos e sorríamos como se fosse possível dançar e sorrir tanto em plena segunda-feira. Mas em Salvador, tudo é possível. De repente eu te vi. E na mesma hora, pensei: é você! E tudo voltou à minha cabeça. A potranca, a gata, a cadela, a ama da princesa, a garota do Corredor da Vitória. Era você. Completamente diferente das outras que você já tinha sido, mas assim mesmo, tão você. No olhar, no sorriso, no jeito de dançar. Era você e eu não podia acreditar. Não consegui fazer mais nada a não ser ficar te olhando. Durante o show inteiro. Só fingia que dançava. Só fingia que prestava atenção no que os meus amigos falavam. Toda a tensão era minha. Toda a atenção era sua. Cabelos quase negros. Pele quase branca. Olhos quase amendoados. Sorriso inteiramente perfeito. Eu tentava me aproximar, mas seus amigos fechavam o cerco e eu não conseguia chegar.

Mais tarde, depois do show, eu triste, resignado, na fila para pagar o estacionamento, senti sua presença de novo. Virei a cabeça e você estava atrás de mim. Descendo a rampa, puxei conversa. O carro que ia te levar para casa estava ao lado do meu. Nos beijamos antes de nos despedirmos. E aquele beijo virou amizade. E aquela amizade virou namoro. E aquele namoro virou casamento. E eu achava que não precisava que nada mais virasse mais nada. Nem nesta, nem nas próximas vidas. Mas eu estava errado. Algo ainda precisava virar. E tudo virou de cabeça para baixo. Eu precisava te perder. Para entender que é impossível ter alguém. Por mais que este alguém pareça ter sido feito para você. Por mais que este alguém pareça ser tudo o que se precisa ter. E assim nos perdemos. Acabou o beijo. Acabou o casamento. Acabou o namoro. Acabou a amizade. Mas não acabou a vida. Não acabou a alma. Não acabou o espírito nem a vontade, que sonha se renovar e reviver. É difícil saber que você continua viva sem que a gente possa se ver. Mas outras vidas virão e eu sei que um dia a gente ainda vai se entender.

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Mário Garcia Jr. é blogueiro Contextual, publicitário, metido a cozinheiro, joga bola de teimoso, mas gosta mesmo é de escrever.

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