Eu me entrevistando


Imagino.

De um lado eu — entrevistadora cruel — querendo desvendar a farsa que a outra eu — a entrevistada ingênua — é. Sou. Sei lá. Até onde eu consigo ser ácida comigo, com perguntas pitorescas, sorrateiras e pelas beiradas, feito um felino à espreita do vacilo de sua caça. Aguardo um lapso de pertinência na minha própria fala, no caso, da outra eu. Ainda do lado de cá, habita uma eu desconfiada e superior a mim (outra) mesma, armando um arco e flecha letal, puxando bem a corda e mirando em uma pergunta alvo que possa me acertar.

Do outro lado, eu, entrevistada crédula, achando que sou blindada de qualquer tentativa de rasteiras desconcertantes, porque sou uma pessoa de bem e nada tenho a temer. Porque da minha vida tudo sei com conformidade enraizada. São fatos e são consequências que podem ser muito bem narrados, pois estou concisa em mim. Presa na minha bondade e coerência, com certo medo virginal, sem malícias e modéstia crônica.

Nesse duelo astucioso de quem está mais pronta para quem, como o bem luta contra o mal e a vida contra a morte, eis que qualquer uma das eu e suas outras querem agir. Certamente a entrevistadora quer começar. Certamente a entrevistada será inicialmente passiva até ser reativa. E se trocássemos de lugar de cada eu, estaríamos nós duas dispostas a prosseguir em buscas de respostas ou perguntas? Pobre da eu que não ceder à minha petulância.

Talvez saiam daqui questões como “você é feliz?”, “qual o sentido da vida?”, “de que se arrepende?”, “qual o seu maior medo?”. Ou Talvez daqui saiam as duas correndo uma da outra. No fundo, no fundo, só eu, de fato sei o que me perguntar e me responder (e vice e versa). É só prestar bem a atenção em mim.

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Nalini Vasconcelos, artista multimídia da música, vídeo e poesia, nerd, fundadora e blogueira Contextual.

#NaliniVasconcelos

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