Sobre elas


Acordei não tão cedo quanto eu desejava. Não saí na hora marcada. Esperei a moça que cuida do meu filho. De minha janela espiei o mar. No azul imenso encontrei a Sereia que não sabe nadar, não desliza sob as águas. Minha Sereia voa. Loira, colar de duas conchas no pescoço. Dança. Tem olho azul e não acredita em nada. Ela é preta da cor de azeviche. Uma jurista de sucesso. Com peitos fartos, amamenta a cria. Ela é médica, mas filosofa. Desenha grades. Canta e faz poesia. Lê Heráclito. É fisioterapeuta, dona de loja. Acabou um casamento falido. Já amou outra mulher. Ela é Oxum, Yemanjá, Iansã. Ela é Nossa Senhora. Ela é Anjo e vadia. Deita, se expõe inteira, se abre e se entrega prá quem ama. Desce a ladeira estreita da favela, um balde na cabeça. Vende pedra na esquina, 3 por dez reais. Lava prato, sobe no ônibus, sorri e sonha. Tem 15, 20, 35, 42, 57, 70 anos. Sereia é sentimento em carne viva, exposta e dilacerada. Sereia é soma de todas as mulheres que já; Oyei...

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Erica Sakaki, blogueira Contextual, vinhólatra, mãe, oficial de justiça, leitora compulsiva, apaixonada por gente, pela vida e pelas voltas que ela (sempre) dá.

#EricaSakaki

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