Universo disperso


Sento na mesa para trabalhar. Começo o dia com uma pendência que está no email. Acabo lendo outros no caminho. Um mail digest de uma revista me leva a ler sobre cinema. Sigo o link que fala da obra. Chego a um livro. Procuro ebooks literários. Achei. Arrumo a pasta offline e lembro de outros autores.

Visito outros sites. Google sobre outros assunto. Acho um documentário sobre arte. Hiper adorei a trilha sonora, mas hiper me perdi nos hiperlinks. Ah, lembrei, vou pesquisar o compositor. Faço alguns downloads. Depois eu vejo o que faço. Depois faço o que pensei. O futuro se perde no presente. Sua ansiosa! Nossa, entrei num site lindo. Vou procurar um tutorial no youtube para fazer igual.

Celular vibra. Lembro que tenho que dar uma resposta pelo WhatsApp. Abro 300 notificações só porque fique duas horas sem olhar. Corrente, piada, meme, textão, mensagem de bom dia ilustradas com flores bregas. Vejo um link para Facebook. Depois um print de Instagram. Vou aproveitar e ver o twitter também. Clico numa notícia. Abro rede por rede por rede e me perco.

O telefone toca. Pensei: quem ainda usa o telefone para falar? Era minha vó.

Esqueci onde estava e o que vim fazer. Algumas abas abertas, notificações acesas, celular vibrando… qual era mesmo a pendência do dia?

Concentração em tempos de prazos. Conhecimento em tempos de informação. Contemplação em tempos de ócio.

O que é para mim e o que é para os outros? Qual a minha obrigação? Qual o meu prazer? Qual a minha escravidão?

“… pois quem não tiver para si dois terços de seu dia é um escravo, seja ele quem for. “ Nietzsche

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Nalini Vasconcelos, artista multimídia da música, vídeo e poesia, nerd, fundadora e blogueira Contextual.

#NaliniVasconcelos