Ruanda: A Terra do Nunca


As pessoas dançavam e cantavam com uma alegria única, tão intensa como eu jamais houvera visto. A cena era incrível! A cada giro que davam sobre o próprio eixo, mais os vários feixes de luz do sol no telhado de palha se destacavam contrapostos ao pó que gradualmente subia a partir daquele chão de terra batida. Os sorrisos eram vários e tão largos quanto cativantes. Uma verdadeira poesia em movimento, intensidade e beleza bem ali ante aos olhos. O ano era 2007 e por alguns instantes me sentia como se o tempo tivesse parado e estivesse numa espécie de lugar paradisíaco, enquanto via como as pessoas que ali louvavam a Deus à sua maneira, como se teletransportando-se momentaneamente para uma espécie de outra dimensão sem qualquer conexão com suas tristes histórias e sua realidade tão latente para além daquelas paredes. Até então, eu jamais houvera estado num lugar em que a média das pessoas mais velhas na região tinham todas no máximo a minha própria idade - e eu nem sequer havia chegado aos trinta. Semblantes pesados e "amadurecidos à fórceps" pareciam ser lugar comum naquele país encravado entre as montanhas leste-africanas. Não foi fácil a chegada a Kigali, capital de Ruanda, mas o impacto que me causara a somatória de tantos sorrisos secos, tantos cemitérios e de tantas narrativas pesadas quanto às histórias vividas individualmente por aqueles a quem eu ia conhecendo me fizeram sentir pequeno. Muito. E estava na história recente daquela gente a razão e fundamento para tudo. Até então, o ano de 1994 estava associado em minha mente a algo fútil como o futebol... não mais! O que acontecera naquela região nesse ano fora uma monstruosidade, um absurdo difícil de adjetivar, fruto do descaso e omissão mundiais em nome da fração dos diamantes belgas que eram escoados a partir dali. Segundo relatos locais, por três meses foram distribuídas "pangas" (facões, em sua maioria de origem chinesa) e a orientação era para que se aguardasse por um sinal. E o tal sinal ocorrera por meio do atentado ao então presidente ruandense de origem hutu. Naquele momento começara o genocídio que dizimaria em cem dias cerca de um milhão de pessoas. Eram vizinhos matando vizinhos, maridos a mulheres, e assim por diante. Foi terrível! O genocídio foi de tamanha magnitude e deixara marcas e cicatrizes tão profundas, que aquele país parecia ter perdido a todos os seus adultos. Todos! Com exceção de algumas poucas velhas senhoras de olhar profundo, sobraram somente crianças com alma envelhecida que nos tempos atuais não eram muito além de jovens adultos, os quais tocavam com seu trabalho e responsabilidade o que restara do país. Uma terra de crianças, quase como o que ouvimos e lemos quanto aos contos de Peter Pan. Mas com um toque agudo de dor, muitas cicatrizes e um peso que parecia somente ter se perpetuado ao longo dos anos. Mas por aquele lapso de tempo, nada importava e eles simplesmente dançavam e cantavam. A alegria era intensa e concentrada. Nada, nem ninguém mais importava. E eu me sentia pleno por de alguma forma ter podido contribuir para aqueles sorrisos. Ruanda: a Terra do Nunca. Difícil explicar. Impossível esquecer.

Bruno Frossard é diretor da Techduto Tecnologia, professor da Fundação Getúlio Vargas, autor de livros e colaborador do Blog Contextual. ---- Obs: duas décadas após o estopim do genocídio em Rwanda (6 de abril de 1994) segue abaixo alguns links sobre o ocorrido ali, um capítulo absolutamente tenebroso na história recente da humanidade: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/reportagens/34710/Vinte+anos+apos+genocidio+ruanda+ainda+tenta+trazer+refugiados+de+volta+para+casa.shtml http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2014/04/07/entenda-o-genocidio-de-ruanda-de-1994-800-mil-mortes-em-cem-dias.htm http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/04/1436794-mundo-nao-aprendeu-nada-com-genocidio-de-ruanda-diz-ativista.shtml http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/04/1436908-ruanda-exclui-embaixador-da-franca-de-cerimonias-de-aniversario-do-genocidio.shtml

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