ESPERE!


Essa é a história da moça e a piscina.

Certo dia a moça se deparou com a piscina. Era um festa, um monte de gente em volta, a moça viu a piscina ali bonita, grande, mas estavam todos fora, ela fora ficou. O dia foi esquentando e o calor tomou conta da moça. Quanto mais quente ficava, mais atraente a piscina se tornava. Mas não era apropriado entrar. Nem roupa de banho ela tinha. Imaginou a confusão que seria sair dali toda molhada, a roupa ia desbotar a cor, o carro ia virar uma lambança no caminho de volta. Bagunça gigante. O calor era forte, a piscina era linda, mas ela preferiu ficar por ali, evitando o suor com uma cerveja gelada (ou três, que é o máximo que ela dizia poder beber sem fazer besteira). Em algum momento a ideia de entrar naquela água se tornou irresistível. Estava quente demais para ficar só olhando. E quando todo mundo já estava indo embora e ninguém mais vendo ela foi. Mergulhou de roupa e tudo. E mergulhou bem fundo. Há muito algo não era tão gostoso. A água fresca não fez o calor sumir, mas deu sentido a ele. E ali ela ficou por horas, feliz, só ela e a piscina. Era como se a piscina quisesse ela ali também. Vai ver ela sentia falta há tempos de ter alguém tão contente com o leve balançar da sua água, o frescor, a borda abaloada pra repousar a cabeça. Durante toda aquela tarde a moça sentiu paz. O sol brilhando cada vez mais forte sequer incomodava a vista. Ela nem pensou em sair. Sentia como se pudesse passar a vida dentro da água. Tinha certeza. De repente o sol se foi e veio a noite. Chegou o vento, o frio, o escuro. E aquela sensação boa já não era tão boa. A boca ficou roxa, o corpo tremia. Ela pensou em sair e foi aí que ouviu seu nome. Olhou em volta curiosa. Mas estavam só ela e a piscina. E, por mais que parecesse esquisito, ela entendeu que era dali que vinha a voz. Daquela grande bacia de água azul. A piscina queria que a moça ficasse. Queria tanto que, vai entender como, conseguiu falar com a moça. E disse pouco. Disse apenas "Não sai. Espera. Já já a manhã chega e o calor volta. Espera?!". Poxa, não era um pedido vindo de algo qualquer. Não veio de um sapato velho ou de um prato de comida sujo. Veio de um linda e grande piscina azul. É claro que ela esperaria. Afinal de contas, se já já chegaria a manhã e ela seria tão feliz como estava, valia a pena. Alí ficou, decidida a aguardar o dia seguinte. Mas as horas foram passando, o vento ficou mais forte, a boca mais roxa, o corpo já não aguentava. Cada minuto ficava mais difícil. E por algum motivo, quando a vontade de sair apertava, a moça lembrava de como se sentiu feliz naquele lugar, de como aquela água parecia lhe dar colo, de como era gostoso repousar a cabeça na borda e deixar o sol bater no rosto e como se sentiu especial e desejada por aquela piscina. E assim ela foi suportando as horas, que não eram muitas, mas nunca passaram tão devagar. Ficava gelado demais às vezes e ela já não tinha certeza. Era quando ela adormecia sem querer e sonhava os melhores sonhos a cada cochilo. Quando despertou do último deles viu o sol surgindo. Ficou tudo mais claro, mais quente, o calor voltou. E quando aquela sensação de plenitude bateu de novo no coração da moça ela teve vontade de dizer à piscina que tinha valido a pena esperar. E que ela esperaria de novo enquanto a piscina lhe abraçasse daquele jeito leve e a fizesse sorrir. Mas falar com piscinas é como falar com brinquedos. Você não pode chamar. Tem que esperar que eles te chamem. A piscina chamaria. Ela tinha certeza. Serena ela deixou o sol tomar conta do lugar, viu a manhã avançar contente, esperando segura a hora em que poderia contar à piscina que depois daquela noite, depois de quase desistir, ela entendeu que quando o que está no fim do trajeto é especial, por mais conturbado que ele seja, vale a pena atravessar.

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Alice Demier é diretora audiovisual, compositora, mãe do Vicente, escritora nas horas vagas (ou nas mais tumultuadas) e blogueira Contextual

#AliceDemier

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