Nuvem colorida


O céu é assim desde que me entendo por gente: um monte de nuvens brancas seguindo viagem. De vez em quando uma colorida passa por elas tomando rumo. Não me diga que você nunca viu nuvens cor de abóbora, verde, rosa choque... Nem mesmo as douradas?!?

Se tivesse prestado atenção já teria notado que, vez ou outra, coisa rara pra não perder a graça, o vento sopra e traz uma nuvem colorida pra perto da gente.

Todo mundo sabe que entre as coisas mais dificeis desse mundo está a tarefa de alcançar nuvens. Passam alto demais, rápido demais, ou quando a gente reparava o chão.

Mas pra não ser injusto e nem dizerem que o céu quer bancar o exibido, ele dá à toda gente um pequeno punhado de voos bem altos. Não tem hora marcada. Ninguém te avisa. Mas quando ele te lança no espaço, pode ter certeza: uma nuvem colorida vai esbarrar no seu rosto. O céu não é rancoroso. Se você fechar os olhos no susto do salto ou tentar voltar correndo com medo da altura, ele vai te dar essa chance outra vez. Existe mais de uma nuvem colorida por pessoa. Mas na multidão de nuvens brancas que borram o azul todos os dias, ser colorida é para poucas. Dizem que a mesma nuvem que você vê lilás, o vizinho enxerga branca. E que as vezes quando tá tudo branco pra você, tem alguém bem perto encantado com uma nuvem cintilante. É uma matemática danada! Você estar alerta e sem medo de voar justo no dia em que a sua nuvem colorida vier pra te abraçar. Num piscar você perde. Ou num piscar você acha e não consegue descansar a vista. Você pode passar uma vida toda sem ver cor em nuvens. E só vai saber que isso é uma pena quem teve a chance de fisgar a sua. Coisa difícil é pegar nuvens. Passam alto demais. Rápido demais. Sempre em outra direção...

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Alice Demier é diretora audiovisual, compositora, mãe do Vicente, escritora nas horas vagas (ou nas mais tumultuadas) e blogueira Contextual

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