Vem brincar ... Ih, deu tilt!


Estava aqui pensando nas variadas situações do cotidiano infantil, onde tentativas de interação, muitas vezes, "dão tilt" - inicialmente parece que vai dar certo, mas no final das contas dá tudo errado! Muito se fala para as crianças que elas devem ser amigas de todo mundo. É como se os pequenos nascessem sabendo como brincar! Às vezes esquecemos que as habilidades sociais também são aprendidas. Pode-se ter a impressão de que esse aprendizado é automático e igual para todas as crianças, mas não é isso o que acontece.

Muitas vezes a tentativa de algumas crianças em iniciar uma interação se dá de uma forma que não funciona. Elas veem os amigos conversando e já chegam falando, sem esperar para saber qual é o assunto da conversa ou para esperar sua vez de falar. O resultado é que elas acabam falando algo que não tem nada a ver (e não captam o interesse dos colegas para o que falaram) ou passam por chatas por sempre interromperem os outros. Outras crianças brincam apenas quando a brincadeira está boa para ele(a) e quando algo acontece fica chateado(a). É o que as crianças dizem - "Fulano vai brincar e não aguenta. Depois fica bravo (ou chora)".

Quase sempre os adultos (pais e educadores) precisam mediar essas relações sociais e para isso não basta apenas falar "vá brincar com seu amiguinho". É preciso mediar e contextualizar. Mediar a comunicação/interação entre a criança e seu amigo. Mostrar às crianças que o “problema” faz parte de um contexto; que o problema não está isolado ou personificado em uma pessoa; que todos os envolvidos participam desse contexto e podem colaborar para melhorar ou piorar a situação.

Com crianças menores, a gente acaba entrando de “corpo e alma” na brincadeira: segura o brinquedo que é motivo de disputa; segura aquela mãozinha que vai jogar o brinquedo no amigo; às vezes dá um limite, encerra aquela brincadeira específica e diz que essa brincadeira não está sendo algo legal. Grifei a palavra aquela, no intuito de assinalar que a questão está na interação e não nas crianças. Quantas vezes nós vemos duas crianças brigarem e fazer as pazes 5 minutos depois? Pois então, a dificuldade delas foi naquela interação anterior e não na amizade em si.

Outro ponto importante assinalar é a diferença em dizer “Essa brincadeira não está sendo algo legal” (ao invés de dizer “Vocês não sabem brincar juntos! Vocês só brincam brigando!”). A segunda frase acaba focando nas crianças ao invés de focar na interação e aí a reclamação do adulto soa mais alto e perde-se tanto a oportunidade de ensinar novas habilidades sociais, quanto de trazer uma solução para o conflito.

Quando as crianças são maiores, a mediação já pode fazer uso da palavra. Procurar fazer com que eles se coloquem no lugar do outro e ensinar como podem falar/fazer a mesma coisa de uma forma mais positiva. O problema não está, por exemplo, em se chatear ou ficar bravo e sim na maneira que a gente expressa essa chateação ou braveza. “Você está chateado com seu amigo porque ele não quis ver tal filme? Sabe, toda vez que ele vem brincar aqui em casa, é você quem decide quais serão as brincadeiras. Já vi o seu amigo tentar sugerir algo e você nem deu bola. Como ele está em sua casa, ele acaba aceitando o que você diz. Desse jeito corre o risco de le não querer mais vir aqui em casa. O que acha de combinarem que cada um sugere uma brincadeira de cada vez?”

Vale à pena ter em mente que tanto o seu pequeno quanto o seu adolescente estão continuamente aprendendo a brincar e a interagir socialmente. Cada um no seu tempo e em cada tempo aprendendo ou aprimorando habilidades específicas. E cabe ao adulto (pais e educadores) acompanharem esses momentos com a devida atenção para que possam fazer as pontuações pertinentes.

------ Camila Miranda, blogueira Contextual, psicóloga de crianças e adolescentes e mãe de uma garotinha rock and roll.

#CamilaMiranda

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