Nós e as velhas trovoadas

Ontem, deitei-me cedo para ler um pouco, mas o sono não demorou muito de chegar. Por volta de uma hora da madrugada, acordei e percebi estarmos debaixo de uma trovoada que foi aumentando de intensidade e diminuindo o espaço entre os trovões. Parecia ter o seu núcleo estacionado em cima de nosso prédio. Hoje, até as trovoadas perderam os limites. Na década de 50 e 60 do século passado, (não me chamem de velho, vamos ser politicamente corretos, chamem-me de idoso), os mais crédulos do Divino diziam que a temporada de trovoadas iniciava-se no dia quatro de dezembro, dia de Santa Barbara e findava-se, em dezenove de março, dia de Santo Zé. Olhe aí o xará. Religiosamente diziam ser a primeira e a ultima trovoadas, embora já no início de novembro as nuvens começavam a rondar os ares, ameaçando desabar. Aí é que começavam a angustia e o medo de Dona Nenzinha. Isso mesmo, minha mãe. Chiiii, lá vem saudosismo! É que hoje na hora da trovoada, com a perda do sono, reportei-me ao passado. Havia na cidade de Cairu, naquela ocasião, dois meteorologistas práticos de plantão. Havia, sim, outros, mas estes eram os de preferência: Senhores José Araujo e João Pernambuco, simplesmente Araujo e Jones. Era somente as nuvens ficarem pretas, e eu recebia a missão: “José vá perguntar (a um dos dois) se hoje vai roncar trovoada”. Às vezes a ordem era convidá-los coercitivamente – palavra da moda hoje - lá em casa, para uma conversa “olho no olho”. Mão no meio da testa, como uma pala de boné, perscrutando o céu, olhar fixos em direção às nuvens e vinha a resposta consistindo da hora, baixa-mar ou preamar, intensidade, e se viria seca ou molhada (sem chuva ou com ). No quadrante norte / oeste poderia ser mais forte, já norte / leste, seria mais fraca. Palavras do Mestre Araújo que tinha mais credibilidade, sem desmerecer o Mestre Jones. O acerto era de nove para um. Com a mudança dos tempos, as previsões começaram a falhar. Igual a “previsão de tempo da Globo”. Mais tarde, quando os dois se foram para a cidade de “pés juntos”, as consultas eram feitas a Benedito, o aviador, que também não tinha lá essas credibilidades, por conta de estar camuflando, no intuito de aliviar o medo da cliente, que era sua mãe. Medo não. Era pavor mesmo que a velha tinha. No fim, até Braz de Herun foi promovido à meteorologista. Previsão positiva de trovoada, uma vela era acesa em frente à imagem de Nossa Senhora das Dores na mesinha do quarto para afugentar o perigo de fim do mundo. Começando os trovões, lá íamos todos, filho, netos e noras para o banimento em um dos quartos da casa. Preferencialmente o da frente, contíguo à sala. Esteira, colchão ou lençol eram colocados no chão, e a meninada sentada sem um piu nem pum. Ai de quem desse um sorriso. E tome Pai Nosso, Ave Maria, Salve Rainha. Terço, Rosário, os escambau. Oração de breviário e inventada. O importante era a ligação com o Céu. Só uma oração não podia ser feita, senão o mundo poderia acabar. Era muito forte: “O Magnificat”. Somente com a certeza do fim do temporal, recebíamos a liberação para voltar às nossas camas, após as nove horas da noite. Se não, ainda poderíamos fazer uma voltinha na rua, não antes de olhar para cima e ter certeza de que não havia nenhuma pontinha de nuvem com trovoada, aguardando a nossa saída para deferir uma “curiscada” em nossas cabeças. Tempo bom, não volta mais...

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Antonio José Meireles, Agente de Policia Federal aposentado, escritor, participante de Literários /Comunidade Elos Literários e escreve para o Jornal da Família em Salvador-Bahia.

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