Caleidoscópio


A saudade é uma péssima companheira para dormir. Sabe aquela pessoa que ocupa mais espaço do que precisa, que se mexe muito, chuta demais, fala em voz alta e ainda te empurra para fora da cama? A saudade é assim. Simplesmente não me deixa dormir. E ela está cada vez pior. Sem dó. Lá vem. Mais uma noite longa para uma vida curta. Vou tentando atravessá-la com um verso, mas ele não se resolve. Não tem métrica, rima, inspiração ou sorte.

São três da manhã no meu relógio sem órbita. As memórias giram e giram e giram em um caleidoscópio sem lógica. Mas sua imagem não se forma. É como um quebra-cabeças que não se encaixa. Forço lembranças inóspitas. Quando foi mesmo a última vez que nos permitimos fazer nada? Perdemos tanto tempo tentando ser alguma coisa. Algo que nunca seremos. E sempre terminamos entre discursos longos e escombros. Sobrevivendo por aparelhos. Com saudade um do outro. Querendo sempre mais um pouco deste jogo morno. Enfadonho.

Vivemos um amor pagão. Cheio de notas penduradas. No crédito, débito, talão. Mais uma madrugada sem fim se instala em minha vida. Ela não se compreende noite. Nem sabe ser dia. Vive vaga, pesada e disforme. E só foge da dor com muita anestesia. Mas mesmo assim não dorme. A madrugada é pura insônia e agonia. O tempo preciso de rascunhar o resumo de um erro: crer que estar ao seu lado bastaria. Eu não sabia. Só fingia que entendia. Mas tudo doía. E eu me reescrevia a cada intervalo de respiração. Estar longe de você não mais me parece ser a melhor solução.

Eu sei, havia sempre uma nova briga. Uma boba birra. Uma vontade escondida de ser mais. Uma tentativa sempre ridícula de buscar a paz. Mas não fazíamos nada de novo. Permanecíamos iguais. Sem nunca olhar para trás. Achando que nada nunca ia dar errado. Nos agarramos e caímos juntos uma vez mais na beira do mesmo cais. De onde saímos encharcados. Lanterna de dois afogados, viciados em fazer aquilo tudo dar errado. Só para depois tentar provar que o amor era capaz de superar mais um fardo. Que podia faltar rima, remo ou rumo. Mapa, vela ou prumo. Mas sobrava vontade de continuar a velejar. Me escuta. Ainda dá. Eu sigo te esperando nessa madrugada fria, na cama vazia, vê se não vai demorar.

Os segundos não passam. O tempo me sufoca. O telefone não toca. Mas eu quase posso ouvir a tua voz. Se eu queria enlouquecer, olha só, esta é a minha chance. O transe do último instante de um romance. Um livro sobre a vida das traças perdido na estante. Um choro constante que ouço sem sossego vindo de um eco perdido do outro lado do espelho. Tudo gira em cores perdidas. Nada tem lógica. O mundo parece flutuar sem órbita. Rumo ao nada. E eu sou apenas um astronauta. Perdido. Sem equipamento de segurança. Sem estação espacial. Sem bandeira para fincar na nossa cama. Sem razão especial. Sem ar e sem esperança. Será que você ainda pensa em mim? Será que você ainda pensa?

O tempo é um trem que nem vai nem vem, apenas custa a passar. Nem sei mais se hoje é ontem ou anteontem. De onde vim ou para onde voo. De onde vem essa ânsia angustiada? Parecia ser só mais uma noite entre o dia e o nada. E, no entanto, é tanto. Estou tonto. Tentando te dar a mão e voltar a respirar. Mas não consigo mais te escutar. Não adianta mais apagar a luz. Amanheceu, é hora de dormir. Quem sabe assim consigo voltar a te sentir...

Lembro da última vez em que você saiu daqui. Três garrafas de Cosecha Tarapaca, dois filmes sem graça, uma lembrança desastrada e uma discussão exagerada. Você pedia um grito que eu preferi não dar. E você viu naquilo uma falta de vontade de continuar. Eu só não queria mais brigar. E você fazia questão de lembrar de episódios que não mais existiam e só resistiam para nos magoar. Por que um beijo dado durante o verão de 1987 teria que influenciar no que estamos sentindo agora? Você só queria um motivo para acabar. E encontrou uma péssima hora. Quinze para as três da madrugada em nosso relógio sem órbita. Droga, droga, droga, droga! Só repito quatro vezes uma palavra, quando quero que ela vá embora.

Pare de ir embora! Volta! Porque desde então. Sou apenas confusão. Enxaquecas de estimação. Insônias fazendo plantão. Alucinógenos plantando ilusão. Teorias sem nenhuma noção. Porcarias causando indigestão. Socos na parede inchando a minha mão. Penso em deserção, mas não quero partir. Tento sorrir, mas acho que já esqueci. Como é mesmo que se faz? É tão difícil sem você aqui. Coloco o LP do Kid Abelha e Paula Toller começa a cantar nada por mim. Nem vá pensando que eu sou seu. Não faça assim.

Você sempre me teve fácil demais porque eu sempre me entreguei barato demais. Na verdade, nunca fomos capazes de cuidar de nós dois. Você me pedindo para eu te deixar em paz e eu te implorando para ficar até depois. Criamos um relacionamento cheio de dívidas, verdades não ditas, carícias esquecidas, lembranças destruídas, indulgências distintas, tendências suicidas. E mesmo agora, nessa madrugada que não finda, não sei se ainda é possível fechar todas as feridas.

Mas enquanto minha cabeça gira sem órbita, com pensamentos sem lógica, penso que talvez ainda esteja de olhos abertos na hora em que você voltar. Se é que você vai voltar. Entrar por aquela porta e me despertar dessa insônia que não acorda e nem me deixa sonhar. Mas se tudo tem que terminar assim, que pelo menos seja até o fim. Para a gente não ter nunca mais que terminar.

#MárioGarciaJr

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