Corrupção Intelectual


Em meio às muitas polêmicas que têm surgido, ainda me impressiono com o excesso de formadores de opinião com posições parciais, raciocínio raso e disposição para debate somente entre os que com eles jamais ousam divergir. Mas qual a alternativa para alunos quando tal enquadramento se aplica também a professores?

Recordo-me claramente, durante meus tempos de mestrado na Unicamp, de certa aula de Finanças Públicas, quando examinávamos a questão da Previdência Social e chegamos juntos à conclusão da inviabilidade ali e do consequente determinismo da mesma quanto à insolvência do Estado brasileiro.

Naquele dia em específico, quando demonstrado pelo mesmo professor que 65% do volume de gastos da Previdência se direcionavam a menos de 12% dos aposentados e pensionistas - todos pensionistas e ex-funcionários públicos, seja da esfera civil, seja da militar, com suas aposentadorias integrais e outros tantos benefícios - ousei perguntar se não seria então razoável mudarmos o regramento, igualando aposentados e pensionistas da esfera pública aos da esfera privada... quanta ousadia!

O que se seguiu à pergunta foi um espetáculo deplorável. Num arroubo, o tal professor se exaltou e em seu monólogo exasperado com um nervoso dedo em riste que quase me tocou o peito, esqueceu-se do raciocínio que construíamos juntos até então e passou a bradar ser aquele um "direito adquirido", arguindo tratar-se de uma cláusula pétrea da Constituição, e que, portanto, não poderia jamais ser alterada, não importando as consequências.

Primeiro: se fora o povo, por meio de seus representantes, quem definiu as leis, por que razão o mesmo povo, por meio de seus mesmos representantes, não poderia alterar quaisquer que sejam as leis?

Segundo: se algo definido em determinado contexto, passasse a ser considerado ultrapassado em função da mudança justamente do contexto em voga, por que razão não se poderia cogitar mudar o que se definiu, uma vez que se passara a saber que aquilo causaria agora problemas para o Estado?

Terceiro: não seria a Universidade exatamente o foro definido, por excelência, para o debate e geração de conhecimento? Haja o que for, não seria ali o locus mais adequado para a análise de quaisquer alternativas para os problemas e desafios que se apresentam?

Divirja no que quiser, mas debata. Nem eu, nem você, somos Deus. O debate e a ciência divergem da fé exatamente num ponto: não se baseiam em dogmas, mas na antítese e na síntese, e isso lastreado em base empírica. Negar o debate, portanto, equivale a assumir estar sempre certo e negar a possibilidade de aprendizado com a divergência, ou de, a partir da discussão, haver qualquer progresso no debate, ou de avanço científico.

Ao percorrer as redes sociais e corredores das empresas, quantos não são os semideuses, à semelhança de meu ex-professor, com os quais ainda me deparo! Lamentável. Achar-se acima de tudo com opiniões que desprezam os fatos ao redor e, principalmente, o outro - não raramente em função de benesses pessoais -, mais que boçalidade científica, é prova inconteste de uma hipocrisia sem limite, além de certa forma de corrupção intelectual.

Um verdadeiro crime, cuja pena deveria ser a indiferença e o silêncio.

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Bruno Frossard, e blogueiro Contextual, um curioso inquieto sobre temas que passeiam pela formalidade da política, a ortodoxia da economia e singularidade da fé.

#BrunoFrossard

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