Por um fio, a palavra


A palavra que escrevia era a única água capaz de matar minha sede. O único remédio de alívio instantâneo. O único ansiolítico capaz de desacelerar meu coração inquieto.

Via aquelas palavras fortes no ar e me agarrava a elas como um alpinista segura os ganchos de sua montanha. Se descesse uma avalanche, ainda ficaria ali, em elo, mesmo que por um fio, levando uma onda de gelo na cara. Estou presa a ela, a palavra que escrevo.

A palavra que escrevia também era navalha. De corte fino, podendo ser letal.

A palavra que escrevia dentro da caverna era sombra, era lanterna, era trilha em busca de luz.

A palavra era alimento. Nutria, se branda, ou matava a fome, se basicamente necessária. A palavra era a base e o topo da pirâmide, era a condição sine qua non, indescritível em si.

Boia, salva-vida, a palavra não naufraga. No máximo, deixa à deriva. Rema de norte a sul, leste a oeste, vê o sol de frente e de costas. A palavra navega. Navegar era preciso.

A palavra inicia e termina. Por um fio, me agarro a ela para viver e sobreviver: a palavra.

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Nalini Vasconcelos, artista multimídia da música, vídeo e poesia, nerd, fundadora e blogueira Contextual.

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