(G)EITO DE (J)ENTE


Três e quinze na rodoviária. No banco descascado do posto do Juizado de Menores, dedos tortos, vacilando, Dona M. folheia um caderno velho, cheio de rabiscos. Procura não sei o quê. A tarde modorrenta escorre insistente, fazendo um frio abafado. Tempo de chuva preguiçosa. O funcionário de bigode, barrigudo, a encarava, franzindo a testa cansada.

Ouvi a outra mulher dizer ao comissário:

- Alguma coisa estranha tem, o menino não ia fugir de casa nove dias pra viver com fome, dormindo na rua, a segurança pegou ele esmolando, perturbando os passageiros.

Cheguei ao balcão nesse exato momento, em que os três cercavam o garoto, mandando ele falar a verdade.

Demorei um pouco para prestar atenção, interessada somente em ser despachada. Estava sem almoçar, apertada para fazer xixi, barriga roncando. Dor de cabeça danada.

- Fale a verdade, o menino disse que apanhava muito.

Ela desiste do manuscrito ensebado. Garante, com medo:

- Não senhor, doutor, levava só umas tapas pra tomar jeito de gente, castigo de criança.

Pela primeira vez o percebi ali: rostinho assustado, olhar molhado, roupa encardida. Pequeno para a idade, magrelo. Acuado.

Meu coração deu um pulo no peito e apertou. Lembrei logo do meu filho.

- V., por que você não tá indo na escola?

Fitando o chão, fiapo de voz:

- Tem aula não, tá sem professora...

Aí me encarou; pedia socorro?

O comissário encostou no balcão, balançando a cabeça:

- Tá vendo, doutora? Não tem escola, não tem comida, não tem atenção. Aduziu, importante: isso é problema de "desfragmentação" familiar... esse ano retomei meu curso de Direito, só faltam três semestres, inclusive já conversei com Dr. D., desembargador federal, homem porreta, ele vai me ajudar no TCC sobre esse tema...

Continuou:

- Isso aqui é toda hora. A mãe não trabalha, sustenta uma "ruma" de filhos com um bolsa família só, o companheiro, que já não é o pai, bebe e senta a mão nos moleques. Aí a criança vê tv, quer alimento, quer tênis, quer celular... e quem dá? O tráfico. Vira bicho solto. Vapor. O menino quer ter as coisas. É normal de gente querer, a senhora não acha?

Nem me deixa responder e dispara:

- Dona M., converse com ele, bota prá vender um amendoim, um picolé... como é que uma criança dessa que não tem p. nenhuma na vida não pode trabalhar? E vai fazer o quê? Ser avião? Não entendo essa lei.

Eu resolvo perguntar, inocente:

- A senhora mora aonde? Itinga? Não tem algum projeto social lá, não? Esporte? Música? Arte?

O barrigudo responde fazendo mofa, como se eu fosse de outro planeta:

- Que mané projeto, minha senhora? O Brasil acabou. Olha esse Juizado, olha nós; aqui não tem nada, zero estrutura, telefone quebrado, sem carro, sem computador, sem material... venderam o país. A gente trabalha é na ousadia!

E encurta a conversa:

- Dona M., assine aqui. Vou liberar o guri porque ele precisa tomar banho e se alimentar. Nove dias dormindo numa maloca. Vá, meu filho, com sua mãe.

V. tropeça indeciso na direção da mãe e eles se abraçam toscamente, duros, sem encaixar direito... os dois choram dores presentes e futuras.

Meu coração ervilha... suspiro alto. Não sei onde colocar as mãos. Inadequada.

Ainda ouço a outra mulher aconselhar:

- Vá trabalhar, juntar seu dinheiro, pequeno, não escolha a rua não, que ela te engole, isso se não for internado na Fundac pra viver com tudo de ruim. Eles te mastigam, te moem, tu vira bagaço. Resto de gente. Se saia!!!

Ameaça a genitora:

- Se alguém de sua família lhe judiar, pegue um ônibus e venha aqui me dizer. Levo no DERCA, aí vão aprender o que é bom...

Meu coração de novo me trai. A garganta dá um nó. Marejo. Sinto pena, impotência, vergonha, raiva, desconforto... não ia fazer nada, como de costume. Mas hoje o calo doeu. A mão tremeu. Abri a carteira e dobrei 50 reais no meio. Boa merda.

Quando ele passou pela porta, eu ainda disse:

- Vá comer.

Ele agradeceu, forçando riso. A mãe olhou comprido a cédula. O comissário piscou:

- Lanchar nada. - Aconselha - Guarde o dinheiro pra comprar seu celular que tu queria.

Silêncio.

Saí para a chuva pesando 1000 quilos. Sem jeito.

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Erica Sakaki, blogueira Contextual, vinhólatra, mãe, oficial de justiça, leitora compulsiva, apaixonada por gente, pela vida e pelas voltas que ela (sempre) dá.

#EricaSakaki

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