Responsabilidade Compartilhada

Uma das expressões mais belas que existe talvez seja “Nós, o Povo”. Por trás de uma expressão tão curta como essa está a noção de que todos partilhamos a responsabilidade por nosso futuro coletivo. Entretanto, um fenômeno intenso e silencioso de divisão, egoísmo e indiferença entre iguais tem se alastrado, não respeitando quaisquer limites e erodindo o tão vital senso de unidade que deveria unir-nos a todos.

Não importam fronteiras geográficas, línguas ou culturas: é flagrante a intensidade como as pessoas cada vez mais têm se tornado indiferentes umas às outras e dividindo-se sob as mais vagas justificativas, ou sem qualquer uma. E justamente num momento em que todos deveríamos estar vivendo num mundo plano e sem barreiras, com o fortalecimento da ideia de bem comum que se supunha e o imaginado aumento, tanto na disposição em ouvir, como quanto ao respeito mútuo que nossos antepassados sonharam para o futuro que hoje vivemos, cada vez mais testemunhamos a ausência do debate, com pessoas se afastando mais e mais umas das outras e reflexos de extremismo dos mais diversos.

A internet e os avanços nos sistemas de transporte deveriam tornar o mundo menor, aumentando a percepção de que o outro que pensa e vive diferente é também um igual. Ao invés, seja com aqueles além das fronteiras, seja com nossos vizinhos de muro, cada dia mais as pessoas se afastam de modo irreconciliável ou simplesmente têm passado a se ignorar mutuamente, vivendo como se em bolhas, cercadas somente por aqueles que pensam e vivem de modo igual e que jamais desafiarão quaisquer de suas premissas ou maneira de viver e pensar.

E tudo talvez comece bem próximo a nós, em nosso microcosmos, com nosso comportamento individualista nas mídias sociais, onde cada vez mais nos fechamos em nós mesmos, ignorando aqueles que pensam diferente de nós. Mundo muito estranho! Ferramentas que deveriam nos integrar têm reforçado nosso individualismo, servindo para cercar-nos somente por aqueles semelhantes a nós.

E são justamente as pessoas diferentes de nós aquelas que mais teriam a nos acrescentar e fazer crescer. As pessoas que pensam como nós, que são como nós, tendem a reforçar a manutenção das mesmas ideias e conceitos antigos que já dominamos, não só limitando nosso crescimento intelectual, como nos estimulando a nos tornarmos mais fechados e extremistas quanto ao que pensamos, e permitindo que progressivamente nos tornemos mais divididos e insensíveis em relação ao mundo que nos cerca.

O rabino Jonathan Sacks certa vez disse que ao invés de nos darmos conta de que vivemos numa mesma casa a que chamamos de planeta, onde cada um de nós é responsável pelo bem-estar de todos os demais, parece que vivemos como se estivéssemos por pernoitar num grande hotel, em que, desde que paguemos nossas contas, teremos nosso quarto para ali podermos fazer o que quisermos sem que precisemos nos importar com os demais. Só que, diferentemente da ideia de casa, que transmite a referência de endereço, de pertencimento, ninguém pertence a um hotel, o que reforça o sentimento de falta de compromisso com o bem-estar comum. Estamos, assim, perdendo cada vez mais nossa principal referência quanto à ideia de sociedade enquanto lugar em que todo tipo de gente diferente se encontra com o objetivo de alcançar o bem comum.

Você já notou, por exemplo, como o pensamento fantasioso passou a dominar o debate político? Não importando a geografia e independentemente de esquerda ou direita, quantas não foram as vezes em que vimos e ouvimos: “eleja esse forte e preparado líder, pois ele irá resolver todos os nossos problemas para nós”? Acredite em mim: isso não passa de pensamento fantasioso! E é fruto de estarmos cada vez mais fechados em nós mesmos, terceirizando nossa responsabilidade. Sem que invistamos na ideia de bem comum e nas responsabilidades e obrigações que todos temos para com nosso ideal de bem coletivo, não será uma única pessoa, por melhor e mais bem preparada que esteja, que o trará.

Se quisermos mudar nossa sorte enquanto cidadãos e moradores dessa grande casa, de modo a que as gerações futuras, ao olharem para trás não nos vejam como um mero ajuntamento de pessoas egoístas sempre prontas a privilegiar o “eu” em detrimento do “nós”, comecemos imediatamente a marcha em sentido contrário ao que está posto, e passemos a buscar ativamente pelas oportunidades de conversar e ouvir aqueles que pensam diferente de nós.

Ouvir com o coração aberto não é fácil, pois demanda paciência e energia. E mais que qualquer mudança de posição quanto a quaisquer de nossas convicções, estejamos certos de que esse simples primeiro passo tem potencial não somente de nos transformar, como de mudar toda a humanidade a partir de nós, pois permite que retomemos a construção da valiosa noção de responsabilidade compartilhada em relação ao nosso futuro coletivo, algo absolutamente fundamental para que lancemos hoje os alicerces sobre os quais nossos filhos e netos construirão seu caminho.

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Bruno Frossard, e blogueiro Contextual, um curioso inquieto sobre temas que passeiam pela formalidade da política, a ortodoxia da economia e singularidade da fé.

#BrunoFrossard

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