UM STAND UP DRAMA

Silêncio. Plateia ansiosa. Luzes se apagam. Entra em cena um palhaço. Maquiagem borrada. Na mão esquerda, um copo de cachaça. Parece meio bêbado e um pouco sem graça. Mas o show não pode parar. E ele começa a falar.

- Eu queria propor um brinde. Um brinde! Um brinde ao relacionamento sem relação. Nem ralação. Um brinde ao namoro sem o outro. Um brinde à punheta. Um brinde à imaginação. Um brinde às revistinhas de sacanagem. Aos romances tolos feitos de papel, tinta e água com açúcar. Um brinde às madrugadas que passamos transando com a televisão. Um brinde ao individualismo. Ao drama asséptico da vida moderna. Um brinde à Suécia. Um brinde ao platonismo!

- E que atire a primeira pedra aquele que nunca teve um amor platônico. Ah, qual é? Claro que você já teve um amor platônico. Aquela coleguinha de sala que intimidava você na escola. Aquela artista global inalcançável, inatingível, impossível. Aquela apresentadora de programa infantil. Eu mesmo era amarradão na Angélica. Angélica, me liga. Esse Luciano Huck não tá com nada. Aquela prima sapeca. Aquela vizinha casada. Aquela colega de trabalho gostosa pra caralho, mas que é colega de trabalho e onde se trabalha não se caralha e onde se ganha o pão não se come a carne... todo mundo aqui já teve um amor platônico.

- Mas não se preocupem. Platonismo é tendência. É sim. Tá tudo lá, tim tim por tim tim, no livro de Bauman. Zygmunt Bauman, que Deus o tenha. O Amor é Líquido. Leia. Procure saber. O platonismo é tendência. E é tendência porque só tem vantagens. Não tem ninguém pra discordar. Não tem ninguém pra discutir. Não tem ninguém pra impedir aquela maratona gostosa na Netflix. Não tem ninguém pra mudar de canal na hora do futebol. E ainda é mais econômico. Não precisa gastar dinheiro com gasolina ou Uber ou 99 Pop ou... não, taxi não. Não tem que levar ninguém pro barzinho, pro restaurante, pro cinema, pro motel. Porra, motel é caro pra caralho! Não precisa comprar presentinho.

- Vamos tirar as pessoas das nossas vidas amorosas. Elas não têm nada a ver com isso. Vamos tirar as pessoas dos relacionamentos. O amor não consegue sobreviver ao ser humano. O amor é perecível ao ser humano! Vamos ser felizes. Sem confusão. Cada um na sua. Um brinde ao platonismo! Seu bando de platônicos enrustidos.

Silêncio total. Nenhum sorriso. Não há palmas. Uma nuvem de constrangimento toma conta do lugar. O palhaço dá uma última golada na cachaça e abandona o palco. As pessoas da plateia não sabem o que fazer. O palhaço volta 2 minutos depois. De cara lavada. Agora abraça a garrafa da mesma cachaça que tomava antes. Ele já não tem certeza de nada. Mas sabe que precisa terminar de falar aquilo tudo. Ele precisa de um ato final. Ele quer muito voltar pra casa.

- Agora eu queria propor outro brinde. Um brinde a mim. Sim, isso mesmo. Um brinde à minha pessoa. Este idiota aqui. Idiota! Este merda aqui. Um merda. É isso que eu sou. Um merda. Só não me chamo de filho da puta porque minha mãe não tem nada a ver com isso. Eu é que sou um idiota. Um covarde. Só porque levei um pé na bunda, fico com esse papinho ridículo de amor platônico. Porra! Quantas vezes eu já falei: não sabe brincar não desce pro play. Caralho! Porra de platonismo. Platonismo porra nenhuma! Platonismo é o caralho. E o caralho é o caralho! Chega de tentar ser feliz sozinho. Chega!

- Eu quero tocar. Eu quero sentir o toque, o cheiro, o sabor. Eu quero sussurrar no ouvido. Eu quero roçar nariz com nariz, beijinho de esquimó. Eu quero fungar no cangote. Eu quero lamber. Eu quero chupar. Eu quero foder, porra! Eu quero foder e não é com uma profissional do sexo. Nem sozinho. Chega de sofrer sozinho. Se o amor não consegue sobreviver ao ser humano, eu não consigo sobreviver sem um ao meu lado.

- Vão embora. Vão. Sai todo mundo daqui! Vão viver suas vidas. Vão amar, namorar, transar. Vão ficar juntinho de quem você ama. Junto. Entenderam? Junto! Eu vou aqui, ver se junto meus cacos pra recomeçar.

Naquela noite, a cortina não se fechou. O palco ficou aberto. A plateia se esvaziou. Sobrou um teatro vazio, em branco. Sobrou o eco de uma arte que imita a vida. E de uma vida que limita a arte. Sobrou a paz do tanto faz. É, acho que faz parte.

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Mário Garcia Jr. é blogueiro Contextual, publicitário, metido a cozinheiro, joga bola de teimoso, mas gosta mesmo é de escrever.

#MárioGarciaJr

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